Na cadeira da sala estava sentado um homem cego que não
queria ser cego. Sei que ele não queria ser cego, pois estava assistindo ao
noticiário na televisão sem áudio e com Closed Caption ligado. Que cego assiste
um noticiário sem áudio, sendo que a única coisa que ele consegue desfrutar
daquele programa é o áudio?
“Cacete de vida. Não quero mais ser cego”, pensou.
Um homem surge sentado ao lado dele. Agora o cego vê, vê
tudo: sala, televisão, noticiário, a casa imunda em que vive e também as
letrinhas miúdas do Closed Caption. Viu e ficou sem voz.
- Eu estou enxergando? – disse agora o ex-cego.
- Sim.
- Quem é você?
- Não importa.
- Como estou enxergando?
- Eu permiti que você enxergasse. Não era isso que você
queria? Ver?
- Sim! Sim! – deu saltos de alegria o ex-cego.
- Vou te dar a oportunidade de não ser cego por um dia.
Aproveite! Saia e veja o mundo, veja as pessoas que tanto ama e depois volte,
no final do dia, para conversarmos.
O ex-cego não se importou em agradecer ou se despedir.
Apenas saiu pelas as ruas desfrutando daquilo que apenas os olhos podem ver.
Chegou à conclusão de que todo cego já desejou enxergar na vida e chegou à
conclusão de que os cegos são um pouco invejosos. Também chegou à conclusão que
os olhos veem aquilo que o ouvido não consegue ouvir.
De olhos abertos, viu as árvores junto com os pássaros
cantando. Foi até um campo de futebol, mas assistiu apenas 15 minutos da
partida. Não tinha tempo a perder. Tomou uma cerveja e apreciou a linda cor do
seu colarinho. Viu crianças, viu velhos, viu homens, viu mulheres. Aproveitou e
comprou uma revista de uma mulher qualquer posando nua. Se deliciou com aquilo.
Assistiu 30 minutos de um filme no cinema, pois não tinha tempo a perder.
Lembrou-se de sua mulher. Uma esposa meio ex-esposa. Por conta
da cegueira, a mulher quis viver a vida. Cuidava do ex-cego, mas tinha a sua
vida. O cego não sabia, mas o ex-cego agora via: sua esposa meio ex-esposa
tinha outra mulher. Além de estar feliz, era gay.
Descobriu que seus pais eram mortos, mas ninguém o avisou.
Descobriu que há algum tempo foi roubado por uma namorada enfermeira. O pouco
que tinha no banco já não existia mais. Para pioras descobriu que essa
ex-namorada enfermeira era feia. Mas o cego não sabia, já o ex-cego via.
Pela primeira vez ligou a televisão no noticiário. Sem
Closed Caption, ele e o âncora do programa se encarando. Viu, viu e se
assustou. “Que mundo perdido”.
Abatido, o ex-cego retornou a sua casa onde o homem o
aguardava sentado no sofá com um sorriso meigo.
- Viu o mundo?
- Vi.
- Bom?
- Diferente daquilo que vi 30 anos atrás...
- As cosias fugiram do controle. Mas ver é bom, não é mesmo?
- É muito bom.
- Muito?
- É muito bom ver aquilo que queremos ver, mas não é tão bom
ver aquilo que não queremos. Se pudéssemos ter um motor onde decidíssemos ser
cego ou não, seria bom. – riu o ex-cego.
- Não dá. Tem que ser cego ou não...
- Ser cego é a pior coisa do mundo.
- E o mundo, como é?
Na cadeira da sala estava sentado um homem cego que não
queria ser cego. Sei que ele não queria ser cego, pois estava assistindo ao
noticiário na televisão sem áudio e com Closed Caption ligado. Que cego assiste
um noticiário sem áudio, sendo que a única coisa que ele consegue desfrutar
daquele programa é o áudio?
“Cacete de mundo”, pensou.
Por Neto Roberti.


















