Era o meu primeiro encontro. Nós já havíamos tentado sair
juntos, mas um acidente na rodovia atrasou minha viagem e eu cheguei na
madrugada em que ela estava voltando pra sua cidade. Só havia dado tempo de eu
passar no prédio em que ela estava hospedada para deixar um livro de criança do
Ziraldo (jogada de mestre).
De qualquer maneira, alguns meses depois, lá estávamos
nós combinando no telefone os últimos detalhes. Iríamos ao cinema. Era estreia
de “Os Vingadores”. Passei na casa dela uma hora antes da sessão: era o tempo
de comer um lanche na praça de alimentação e começar um papo legal antes do
filme.
Eu estava tranquilo. Nunca tinha tido dificuldade nenhuma
em falar. Alguns sabem tocar um instrumento, outros sabem jogar algum esporte,
eu sei falar. Com certeza, não encontraria barreiras em desenrolar uma boa
conversa com ela. Peguei-a na entrada do prédio, no caminho para o cinema nos
cumprimentamos, perguntamos das famílias e amigos em comum. Até aí, normal.
Chegamos na praça de alimentação do shopping, fizemos
nossos pedidos e aí começou o desastre. Não sei o que aconteceu. Aquela loira
na minha frente, aquele vestido, aquele sorriso, quebrou minhas pernas. Pensa
num cara perdido. Eu não sabia se cruzava ou não as mãos; se colocava sobre
minhas pernas ou sobre a mesa; se olhava pra ela, pra mesa ou para os lados; se
comia ou se brincava com a comida. A minha língua travou. Era ela quem puxava
papo e eu só conseguia responder de forma monossilábica.
Quando levantamos da mesa em direção à fila do cinema, eu
sabia que havia perdido o controle, que precisava fazer alguma coisa para
retomar as rédeas do encontro. No saguão do cinema, várias filas gigantes. Fui
fazer meu papel de macho. “Por favor, amigo, essa é a fila dos Vingadores?”
“Hãn?”, respondeu o homem. “Os Vingadores. É essa fila?” “Hãn?”, disse mais uma
vez o homem, gesticulando nervosamente com as mãos. Visivelmente impaciente,
pensei: “Caramba, esse cara é surdo?” Era. Os gestos? LIBRAS. O mundo
conspirava contra mim. Qual a chance de eu pedir informações para um surdo na
fila de um cinema, E NÃO PERCEBER ISSO?
Falei calmamente, olhando bem para o homem, e ele soube
me responder: era sim a fila dos Vingadores. Tudo bem. Calma, respira, você
ainda pode consertar. Faz uma piada! Isso, uma piada. No meio da conversa,
joguei uma piada de mal gosto, sobre gays. Não lembro o contexto, não lembro
porque fiz aquela piada, mas fiz. A piada era boa, pô. Mas ela não riu. Apenas
olhou apreensiva para alguém atrás de mim na fila. “Qual é!”, pensei, “só tem
um marmanjo atrás de mim”. Olhei. Tinha um marmanjo mesmo. Um não, dois. De
mãos dadas.
Desisti de mais tentativas e resolvi esperar o filme,
torcendo para que fosse bom. Entramos na sala de cinema e não é que o filme era
ótimo? Tão bom, mas tão bom, que o adolescente aqui NEM OLHOU PARA O LADO! Não
troquei mais que algumas palavras com ela durante todo o filme, e quando falei,
era pra explicar sobre a semelhança do filme com o gibi, e o que iria acontecer
depois, e qualquer outra coisa que, com certeza, ela não tinha o mínimo
interesse.
Não dava para ficar pior. Dava, dava sim. Saímos do
filme, o silêncio ainda reinava. Peguei o carro e propus: “quer dar uma volta?”
“Quero.” Aí sim, muléke! Rio Preto é uma cidade linda, tem a represa, as
avenidas principais, lugares altos com vistas maravilhosas. O problema é que eu
ainda estava travado e andei durante uma hora a esmo pelas quebradas de Rio Preto,
tentando, frustrantemente, puxar papo com ela. Mais tarde, chegando em casa,
parei para pensar no trajeto que fizemos. Se ela percebeu por onde passamos,
acabou conhecendo todas as bocas, pontos de travesti, lixões e os lugares mais
feios de Rio Preto.
O que é essa mulher, minha gente? Kryptonita? O pior da
noite ainda estava por vir. Chegamos na porta do prédio dela. Era, talvez, o
momento mais importante da noite. Era a hora que podia valer toda a noite. Uma
frase bem colocada, um gesto sensível e o fracasso da noite ficaria esquecido
na eternidade. Parei o carro. Ela diz: “Quer subir?” BINGO! Contra todas as
expectativas, contra todas as apostas, ela tinha me chamado pra subir. Como sou
malandro, não pensei duas vezes: “Não, não. To com sono.”
Eu disse: “Não, não. To com sono.” Sabe aquelas palavras
que saem da nossa boca e a gente não sabe como? Que a gente fica pensando “mas
ei! Eu não disse isso!”? Então. Eu disse. Ela disse “ok, então”, me beijou no
rosto e saiu do carro. Voltei pra casa desconsolado. Vergonha do papai.
Mas no outro dia ela me ligou. E no outro. E no outro. E
no outro... O segredo? Sou malandro, né? (manter baixas as expectativas).
Por Vitor Martinez de Mello.


















