Era meio-dia, a rodoviária da cidade estava relativamente
movimentada e os dois taxistas conversavam para tentar esquecer o mormaço
sufocante que sempre segue uma chuva curta demais para refrescar o clima.
Conversavam e falavam das saias das mulheres. “Ah, esses dias de mormaço... Foi Deus quem
inventou a saia rodada, só pode ser...”, disse o Bexiga. Ele realmente
parecia uma bexiga: baixinho e barrigudo. Tiozão, o outro taxista, que era bem
mais velho, bem mais grisalho e, proporcionalmente, bem mais maldoso que o
Bexiga, respondeu que “se Deus inventou a
saia rodada, o diabo inventou a calça legging”, apontando para uma loira
que passava. O Bexiga suspirou em voz alta, “isso
aí lá em casa...”, mas lembrou da esposa e instintivamente varreu o
perímetro com os olhos para ter certeza de que não fora flagrado. Fez o sinal
da cruz e voltou a prestar atenção no Tiozão, que inventava uma mentira sobre
alguma pesquisa de opinião feita por uma universidade gringa que constatava que
a calça legging e a penicilina eram consideradas os maiores avanços da
humanidade; ou algo nesse sentido.
Ainda jogavam conversa fora quando o olhar de ambos foi
atraído para a rua que passava na lateral da rodoviária. Era um mendigo carregando
um armário. A visão era um tanto pitoresca. O homem vestia um terno completo.
Alguém mais atento chegaria à conclusão de que era um terno fino, feito sob
medida para alguém com as dimensões muito próximas às do homem que agora o
trajava. Mas estava tão amassado e sujo que os taxistas apenas acharam
engraçado um mendigo de terno e gravata em um dia tão quente. O Bexiga atentou
para outro detalhe: os sapatos. Chegou até a bater uma invejinha. O taxista
ainda lembrava, na semana anterior, quando sua mulher o criticava com uma
crueldade ácida pelo fato de “não ter um
par de sapatos decentes pra pelo menos não parecer que estamos passando fome
quando formos almoçar na mamãe”. E aquele mendigo com sapatos tão legais...
Um bom engraxate e aquele sapato ficava novinho.
Nesse ponto, o Tiozão fez uma observação interessante, “esse mendigo tá meio estranho, cabelo
curto, barba recém-feita...” Os dois taxistas foram comentando e
acompanhando com os olhos aquele homem que carregava um armário. Carregava
puxando por uma corda e, diga-se de passagem, o fazia com relativa facilidade,
apesar do tamanho avantajado do armário. “Deve
ser de madeirite”, disse o Tiozão, porque o homem era fraco, quase do
tamanho do Bexiga, mas sem a barriga. De qualquer maneira, o homem dobrou a
esquina, passando exatamente em frente os taxistas, que disfarçaram, falando
novamente sobre calça legging, mas sem tirar os olhos da curiosa figura. Alguns
passos adiante o mendigo parou. Olhou para o armário com uma expressão de dor
no rosto, soltou a corda, continuou a andar, deixando o armário ali no meio da
rua, e dobrou a primeira à esquerda.
Os taxistas se olharam. “Deve ter ido comprar uma cachacinha”, disse o Tiozão, porque no
fundo era o que ele queria. Aquele armário ficou ali, no meio da rua,
atrapalhando um pouco o trânsito, mas não o suficiente para alguém se dispor a
tirá-lo dali.
O homem do terno não voltou e os dois começaram a
especular qual seria a história daquele homem, ou melhor, daquele armário. “Deve ter achado em algum lixão”, disse
o Tiozão, porque simplesmente ele não conseguia calar a boca, sempre tinha que
dizer algo, por mais idiota que fosse. “Não
me parece o tipo de armário que alguém joga num lixão”, disse o Bexiga, “está em bom estado... É mais provável que
ele tenha roubado, daí o terno e os sapatos...”
Falavam disso ainda quando chegou um cliente. Era a vez
do Tiozão. “Essa bosta de armário está
bem na frente do meu carro, me ajuda aqui Bexiga”. Ainda bem que era vez do
Tiozão, porque se fosse a vez do Bexiga, o Tiozão não ia levantar uma palha pra
ajudar a tirar o armário. Lá foram os dois pra tirar o armário. “Mano! Que peso é esse? É madeira de lei
essa porra...” “E o maluco tava puxando isso feito isopor...” Levaram bem
uns 10 minutos para tirar o armário do caminho. Mas quando foram subir o
armário na calçada, enroscou no meio-fio e caiu no chão com um estrondo que
parou por dois segundos a movimentação da rodoviária.
O Tiozão fingiu que não viu. Entrou no carro com o seu
cliente, buzinou para seu amigo e saiu vazado. O Bexiga ainda ficou um tempo
olhando para o armário. Com o tombo, a porta ficou meio entreaberta. Não que
ele estivesse curioso, mas... Abriu de vez. Um vestido vermelho de seda e um
porta-retratos quebrado, “provavelmente
com o tombo...”, com uma foto rasgada pela metade.
O taxista voltou pra casa pensativo e não fez relação
nenhuma quando, no outro dia, saiu uma nota de canto de página no jornal sobre
o suicídio de um advogado.
Por Vitor Martinez de Mello.


















