Havia um rei. Um grande rei que
reinava sobre um grande reino. E na corte desse grande rei havia um bobo, ou
melhor, o Bobo. O rei amava o Bobo, pois bobo como o Bobo não havia, nem nunca
se viu. O Bobo era incrível: genial inventor das mais engenhosas palhaçadas e capaz
de, com sua pura ingenuidade, arrancar um sorriso do próprio carrasco-real.
O rei o amava tanto que um dia
resolveu dar um banquete inesquecível no castelo real em sua homenagem.
Contratou as melhores cozinheiras, os melhores decoradores, os melhores
serviçais, os melhores músicos e as melhores dançarinas de todo o reino. Tudo
em honra ao Bobo.
O ápice da festa foi quando ele,
o Bobo, trajando suas roupas coloridas de cetim e suas botas de camurça,
adentrou o salão principal e, diante do trono do rei, realizou a melhor
performance de toda a sua vida. Os melhores médicos do reino (também
contratados pelo rei) tiveram trabalho para atender tanta gente com dor
abdominal, urinando-se e contorcendo-se pelo chão de tanto rir. Infelizmente
uma senhora, prima do copeiro-chefe, veio a óbito devido à falta de oxigênio no
cérebro (o riso pode ser algo perigoso). De qualquer maneira, a alegria era
tanta, que todos acharam por bem deixar o luto para o dia seguinte. Inclusive o
copeiro-chefe.
O rei, também vítima das dores
abdominais causadas pelo riso em excesso, maravilhado com a habilidade e
inocência do Bobo, fez algo inimaginável: chamou-o para perto de si e, para
surpresa de todos, entrego-lhe seu cetro.
- Bobo, eis aí meu cetro. Você
tem agora uma missão muito importante: deve passar esse cetro para alguém mais
bobo do que você, que dará continuidade ao seu legado e alegrará a mim e a toda
minha corte.
O Bobo, levando ao pé da letra
como todas as ordens que recebia, agradeceu ao rei e saiu imediatamente do
castelo, iniciando uma viagem pelo mundo para encontrar alguém mais bobo do que
ele e, assim, cumprir a missão que lhe havia sido designada.
Por anos aquela cidade foi menos
alegre. O Bobo realmente se empenhara em sua tarefa e viajara pelos recantos mais
exóticos, distantes e obscuros da Terra em busca de alguém mais bobo do que
ele. Talvez sua viagem durasse ainda mais alguns anos, não tivesse ele recebido
um telegrama de seu rei pedindo para que voltasse ao castelo imediatamente.
Uma semana depois o Bobo entrava
pelos portões da cidade com sua alegria típica, sem nenhum companheiro e com o
cetro debaixo do braço. Foi levado então até o quarto mais suntuoso do castelo,
onde o rei se encontrava acamado. Este estava doente e morreria em poucos dias.
O Bobo, que não conhecia muita coisa sobre a vida, não entendia porque estavam
todos com semblantes tão pesados.
O rei tentou então explicar sua
situação ao seu amigo:
- Acontece que eu estou muito
triste, Bobo, pois vou fazer uma viagem muito importante e muito longa, talvez
a viagem mais importante e definitiva que alguém pode fazer, e sinto que não me
preparei para ela.
O Bobo ouviu, pensou, foi até sua
mala que se encontrava ao lado da porta do quarto, pegou um grande embrulho e o
entregou ao rei. Era o cetro. O rei foi à loucura.
- Você ficou louco? Será que
agora, no final da minha vida, você resolveu se rebelar contra mim que te fiz
tão bem e que te tratei como um de meus filhos?
Triste, o Bobo respondeu:
- Não, meu rei. Mas só alguém
mais bobo do que eu para não se preparar para uma viagem tão importante.
*** Essa história eu ouvi de um amigo, que ouviu de seu pai, que leu em
algum livro...
Por Vitor Martinez de Mello.


















