O mar não está pra peixes.
"O mar não está pra peixes", era a única coisa que dizia aquele pescador em alto mar.
Eram três pescadores em alto mar. O mar estava em total calmaria, o que causava até mesmo um leve enjoo neles. Enfileiradas estavam três varas com seus sinos intactos. A necessidade de se pescar um peixe era tanta, que os pescadores imaginavam estar ouvindo o barulho do sino balançar e corriam a todo o momento para tentar "fisgar" o que não existia. Aconteceu que o mar não estava pra peixe.
Um dos pescadores estava encostado na borda do barco com as mãos no queixo, olhando fixamente para o fundo do mar. Ele queria ver peixes. O outro estava ao lado deste, fumando um cigarro de palha e olhando fixamento para o céu, sabendo que choveria. O terceiro estava atrás dos dois, sentado em uma parte elevada do barco resmungando: "O mar não está pra peixes". Acontece que o mar realmente não estava pra peixes...
O homem que olhava fixamente para o mar não era religioso. "Deus não existe. Se existisse não teria levado minha mulher da maneira que levou e ter me deixado nessa vida miserável". O que olhava fixamente para o céu era totalmente pentecostal. "Deus existe sim! Ele está presente em nossos corações e trará peixes nesse mar que matará nossa fome". Ele encerrou dizendo algumas palavras que, mais tarde, ele admitiu ser a 'língua dos Anjos". O homem que resmungava não olhava para nada, mas estava com os olhos fixos e resmungando: "Nada adianta... o mar não está pra peixes".
A necessidade de buscar peixes era simples: numa vida de pescador, peixe é o pão. Se não voltasse à terra firme com alguns peixes em caixas de isopor, simplesmente não comeriam, pois não receberiam pelo trabalho. Já era dois dias em alto mar na base de rum e bananas, mistura que causou diarreia nos três. A hora de voltar estava se aproximando. Se levassem peixes, veriam a glória de receber por isso. Se não levassem os peixes, morreriam com a fama de 'falsos pescadores'.
Segundo uma mulher na cidade, a fama de falso pescador irritava a todos os pescadores. Era como chamar a mãe de alguém de "puta". Ninguém admitia ser chamado de falso pescador, assim como as mães não admitiam ser chamadas de "putas", desde que não fossem...
A fé não era bem-vinda no momento. Eles sabiam que Deus não estava com eles. O homem que olhava fixamente para o mar sabia que Deus não faria nada por ele, mas acreditava no poder da natureza. Ele já dizia: "O mar é dos peixes, tem peixe aí!".
O homem que olhava fixamente para o céu sabia que a natureza não faria nada por ele, mas acreditava no seu Deus. Ele dizia: "Deus faz todas as coisas!".
Fé e esperança são coisas bonitas, mas a realidade é fria e calculista. Nem todos tem fé, nem todos tem esperança. Mas todos convivem com a fria realidade. A vida é real, não um conto de fadas.
Enquanto um homem olhava pela fé e o outro pela esperança, o resmungão é quem tinha a certeza das coisas: "Sejamos realistas, meus amigos... o mar não está pra peixes".
Por Neto Roberti.


















