SESSÃO: Texto Crítico - Por Neto Roberti

» Postado por: - Categorias: | 5 de out. de 2012
Vou embora.
O banco de uma praia estava sujo com alguns grãos de areia. Era uma praia simples, porcamente maltratada pela população. Não era uma praia que recebia turistas, pois era feia e sem graça. Mas também não era deserta, pois era o símbolo daquela pequena cidade. As ondas batiam em sintonia contra a areia, molhando-a e trazendo um som agradável aos ouvidos. Estava deserta, mas o sol ainda estava nascendo sob o mar naquela linda manhã de sábado.

Um moço raivoso, de aproximadamente 25 anos de idade sentou-se no banco. Não tinha expectativas, seus olhos fundos entregavam que ele não sonhava. Interessante, a mente dele sonhava apenas com o passado, mas não com o futuro. Que futuro? Pensava ele. 
O moço raivoso deixou uma festa infantil na noite anterior por volta das 20 h e foi para o bar se embriagar. Não gostava de beber. Não suportava o cheiro de vodka e só de pensar na cor da cerveja, sentia vontade de vomitar, assim como quando a espuma branca tocava seus lábios. Queria apenas afogar as mágoas num bar de fracassados.

O motivo pela bebedeira começa na sua infância. Quando com três anos de idade viu sua mãe ser brutalmente assassinada por dois homens, e seu pai, o único que o amava, deixá-lo com uma tia. Cresceu, estudou. Trabalha numa empresa, ganha um salário mínimo e sobrevive. Não vive, apenas sobrevive. No banco, mau-humorado como sempre, vê um velho se aproximando.

- Posso me sentar? - Pergunta o idoso, gentil.
- Claro. O banco não é meu.
Virou para o outro lado e pensou se aquilo foi grosseiro. "O banco não é meu". Bastava apenas um claro.
- Cedo demais para estar aqui, não? - perguntou o velho.
- Cedo demais pra conversar com estranhos também.
Não virou para o lado para pensar sobre o que disse. Disse o que queria dizer. 
- Deve estar de ressaca. Isso realmente causa mau-humor. - riu o velho.
- Não estou de mau-humor, só não estou a fim de conversar em pleno sábado, às 6 h da manhã com um velho estranho.
- Me desculpa. Quis apenas ser gentil. 
O silêncio voltou a tomar conta daquele lugar, mas o velho fez questão de quebrar o silêncio.
- Meu filho adorava aquelas pássaros. - apontou para uma garça. - Brincava sempre por aqui. Vivia feliz, hoje deve ser triste.
- Cadê ele?
- Não sei. Se perdeu na vida. Assim como eu, a mãe... Apenas se perdeu.
- Meu pai também. Minha mãe sumiu e ele se perdeu. Na verdade me perdeu.
- Temos histórias parecidas...

A ressaca dominava a mente do moço. Não visitava aquela praia há cinco anos. O trabalho era puxado e não tinha tempo para ficar passeando na praia. Tinha em mente a certeza de que só voltaria naquela praia dali cinco anos. Mas a ressaca o dominava, ele precisava dormir. Se despediu do velho:

- Senhor, eu vou embora.
- Já?
- Sim. Vou embora.
- Adeus.
- Adeus.

E assim, pela segunda vez na sua vida, o moço raivoso se perdeu de seu pai.

Por Neto Roberti.