Aconteceu que um dia as máscaras
sumiram das cabeceiras das camas. Não havia explicação alguma para o ocorrido,
apenas sumiram. Caos na cidade. Ninguém ousou sair de casa, ninguém apareceu no
trabalho, nem sequer na esquina para passear com o cachorro. Quem colocaria os
pés para fora de casa sem suas máscaras? Observados apenas pelos vitrais de
suas janelas, cada cidadão assistia atentamente ao noticiário que relatava o
acontecimento terrível e os danos que a cidade já estava sofrendo em
decorrência dele: “As lojas estão fechadas!”, “Onde vamos comprar comida?”,
“Onde vamos sacar dinheiro?”, “Será este o motivo de falência de todas as
empresas?”, “E os servidores públicos?”, “E a polícia?”. Nem mesmo a polícia investigativa
ousou fazer seu papel. Os policiais também não queriam correr o risco de sair
às ruas sem máscaras. Era como que um problema eterno e sem solução... foi
assim que aquela cidade se tornou uma cidade vazia.
Certo dia, muito tempo depois, houve uma moça
que decidiu sair. “Eu não sei me comunicar com o mundo”, era o pensamento que a
movia. A vontade de falar, ouvir, ver, tocar, ter pessoas em carne e osso por
perto, foi motivo para que fosse arquitetada quase que uma revolução. Maquinou
por semanas como seria sua aparição em público sem máscaras. Nem uma
mascarazinha sequer. Levantou do sofá e desligou a TV - o único aparelho que
proporcionava a qualquer pessoa a comunicação. Afinal, a TV nunca perde suas
máscaras. Tomou um banho, vestiu uma roupa bonita, olhou-se no espelho (sem a
máscara desta vez) e abriu a porta.
“E aprenda como se comunicar com
o mundo todo sem usar a TV! Chegou a era da internet!”
– anunciou a televisão. Ela fechou a porta e tornou a sentar no sofá, para
deixar que a televisão lhe ensinasse como se comunicar com o mundo.
Por Jessica Roberti.


















