Era uma vez
um mundo onde só havia três tipos de pessoa: as que tinham cabeças de concreto,
as que tinham cabeças fechadas, e as de cabeças vazias. Como suas ideias e
modos de vida eram diferentes, separaram-se em tribos: os Concretos, os
Fechados e os Vazios.
As tribos
habitavam todo o território do planeta, exceto o centro: lá vivia um indivíduo,
apenas ele, exilado dos demais por ter a única cabeça diferente.
Certa vez, um
sábio chamado Verdade passeava pelo mundo. Verdade tinha uma cabeça diferente:
era transparente e dentro dela havia algo que reluzia como ouro. Era sua ideia.
A proposta de Verdade era vender esta ideia a todas as tribos, então ele passou
anos convivendo entre elas e tentando convencê-las que aquela seria a melhor
compra de suas vidas. Sua ideia poderia salvar o mundo e todas as vidas, de
todas as tribos.
Os Concretos
chegaram a admirar a ideia e despertou neles uma curiosidade quase que capaz de
fazê-los compra-la. Quase. Para ter a ideia de Verdade, deveriam quebrar suas
cabeças de concreto, o que lhes custaria uma dor intensa e, até então, nunca
experimentada. Optaram por deixar a ideia do sábio de lado.
Os Fechados
nem sequer cogitaram a possibilidade. Não abririam suas cabeças para uma ideia
estranha, de um cara estranho. E, além disso, como poderia uma ideia só salvar
todas as tribos, se cada tribo era diferente e tinha sua própria cabeça?
Rejeitaram rispidamente a ideia do sábio.
Os Vazios...
bom, estes estavam tão acostumados a não ter nada em suas cabeças, que não lhes
atraía a proposta de ocupa-las. Na verdade, em suas cabeças vazias não cabia
nem um pensamento que pudesse despertar a motivação. Contentavam-se em não
pensar nada.
Sendo assim,
reuniram-se todas as tribos para despedir-se do sábio Verdade. Triste,
frustrado e pronto para partir com sua ideia, ainda intacta em sua cabeça
transparente, surge no meio da multidão um grito que ecoou como um trovão.
- Volte! Eu
quero comprar sua ideia.
Apareceu, magro
e mal vestido, um garoto. A multidão olhou com desprezo, as mães cobriam os
olhos de seus filhos. Era ele, o exilado. Sua cabeça era demasiadamente feia e
distinta das outras: era completamente aberta. O motivo do exílio era evitar
qualquer escândalo que pudesse ser causado por aquele garoto, aquela aberração
do mundo, o menino da cabeça aberta.
- Claro –
respondeu o sábio. Siga-me.
O garoto
seguiu imediatamente o sábio e ambos partiram em direção a uma nuvem de areia,
depois desapareceram.
Verdade viveu
anos entre as tribos tentando vender sua ideia. Os Concretos permaneceram com
suas cabeças de concreto, instigados com o brilho da ideia, mas sem coragem de
quebrar suas cabeças. Os Fechados retornaram para suas casas pensando terem
feito a escolha mais segura. Os Vazios... bom, estes não pensaram nada. E
apenas o menino da cabeça aberta conheceu a salvação que havia na ideia de
Verdade.


















