SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 24 de out. de 2012
O problema da Dehborah.
O nome dela era Dehborah. Isso mesmo, com dois agás. “É mais chique”, disse a mãe dela, “quero que ela seja famosa, então precisa ter dois agás”.

A Dehborah era uma moça incrível. Muito inteligente, sempre se destacou entre seus colegas de escola. “No começo, achava que ela colava nas minhas provas, mas, na real, ela era boa mesmo”, comentou certa vez sobre ela um professor de geografia.

Ela também era muito esforçada. Vivia numa comunidade instalada ilegalmente em um terreno privado pertencente a uma empresa exploradora de granito. Por esse motivo, era chamada de “comunidade da Pedreira”. Apesar de toda sua condição financeira adversa e da impossibilidade de estudar em uma escola de qualidade ou de fazer um curso de línguas, Dehborah conseguia se expressar em inglês, espanhol, e dizem que hoje ela está aprendendo italiano. Todos os dias ela ia a pé até uma biblioteca que ficava a alguns quilômetros de sua escola no centro de Arujá (cidadezinha aconchegante na grande São Paulo). Lá ela passava horas comparando traduções em diferentes línguas de obras do Machado de Assis (às vezes, quando não tinha outro jeito, Paulo Coelho). Pra aprender a pronúncia era mais fácil: Eliseu, o muambeiro da Pedreira, passava toda semana na casa dela pra deixar os filmes em cartaz no cinema que ele baixava da internet. Com as legendas e com um pouco de sorte, ela conseguia aprender alguma coisa. Era assim que ela aprendia as línguas.

Apesar de tudo isso, não era a sua inteligência ou a sua dedicação que a destacavam: ela conseguia ver coisas que as outras pessoas não viam. Possuía uma lógica implacável e um raciocínio sempre muito sólido, assim sempre tinha uma opinião acertada sobre os assuntos mais traiçoeiros. Ela poderia convencer qualquer pessoa de algo que ela considerasse digno de defesa. Debater com ela era simplesmente frustrante. Ela tinha uma habilidade incrível de conduzir as discussões mais complicadas para os campos mais favoráveis. Era bonito se ver como todo esse talento era utilizado com uma inocência e um senso de justiça tão aguçados. Ela ia ser uma ótima advogada. Aliás, esse era seu grande sonho. Defender pessoas injustiçadas. Depois de viver todos aqueles anos na favela e ver como seus irmãos de pobreza nunca tinham quem os defendesse de maneira igualitária, ela tinha resolvido que ia fazer a diferença. Ela só se lamentava ter que esperar tanto tempo, ainda tinha 17 anos. Imaginava-se entrando no tribunal. No banco dos réus, o Tonho da 25, acusado de ter roubado um saco de arroz do hipermercado de um bacana. Defendendo o bacana, um advogado vestindo um terno Armani, com sapatos de couro de jacaré e um olhar arrogante estampado na cara. Ela iria acabar com esse tipo de gente. Iria fazer um discurso inflamado e emocionante sobre a família do Tonho, sobre a Jéhssyca, sua filhinha de 2 anos, sobre as dificuldades que ele tinha passado na vida, sobre como o Tonho não tinha nada, sobre como o próprio bacana ostentava sua fartura e sobre como a culpa, no fim das contas, era do estado. Eles iriam ver só. Mais alguns anos e a galera do morro não ia precisar mais se preocupar (se fossem inocentes, porque ela também não ia estudar pra defender traficante). Tudo ia ser diferente. Pra ela e pra todos os outros.

Infelizmente, a Dehborah tem esse problema”, reconheciam todos que a conheciam. Um problema seríssimo. Um problema que a fez perder a vaga de estagiária na sua primeira entrevista de emprego para uma garota de notas sofríveis em uma faculdade particular da zona sul de São Paulo. Um problema que a impossibilitou terminar sua faculdade, visto que não conseguia emprego, e que a obrigou a trabalhar na quitanda do Nando (“trabalho muito digno”, dizia ela, “mas que não me preenche...”). Um problema que a inibia de tal maneira diante das outras pessoas, que foram poucos os que tiveram o prazer de assistir a Implacável Lógica de Deborah em ação.

O problema? Uma deficiência dentária. Devido a uma má formação ocasionada por uma combinação de genética e anos sem cuidados profissionais, a sua arcada dentária superior se projetava para frente de maneira que seus lábios dificilmente escondiam os protuberantes dentes, lhe conferindo o aspecto de uma morsa-mãe ou de um desenho animado de mau gosto.

Deus e suas piadas”, diziam sua mãe e seus irmãos. Mas Dehborah, a menina que via o que os outros não viam, sabia que a culpa não era dos seus dentes.

Por Vitor Martinez de Mello.