O nome dela era Dehborah. Isso
mesmo, com dois agás. “É mais chique”,
disse a mãe dela, “quero que ela seja
famosa, então precisa ter dois agás”.
A Dehborah era uma moça incrível.
Muito inteligente, sempre se destacou entre seus colegas de escola. “No começo, achava que ela colava nas minhas
provas, mas, na real, ela era boa mesmo”, comentou certa vez sobre ela um
professor de geografia.
Ela também era muito esforçada. Vivia
numa comunidade instalada ilegalmente em um terreno privado pertencente a uma
empresa exploradora de granito. Por esse motivo, era chamada de “comunidade da
Pedreira”. Apesar de toda sua condição financeira adversa e da impossibilidade
de estudar em uma escola de qualidade ou de fazer um curso de línguas, Dehborah
conseguia se expressar em inglês, espanhol, e dizem que hoje ela está
aprendendo italiano. Todos os dias ela ia a pé até uma biblioteca que ficava a
alguns quilômetros de sua escola no centro de Arujá (cidadezinha aconchegante
na grande São Paulo). Lá ela passava horas comparando traduções em diferentes
línguas de obras do Machado de Assis (às vezes, quando não tinha outro jeito,
Paulo Coelho). Pra aprender a pronúncia era mais fácil: Eliseu, o muambeiro da
Pedreira, passava toda semana na casa dela pra deixar os filmes em cartaz no
cinema que ele baixava da internet. Com as legendas e com um pouco de sorte,
ela conseguia aprender alguma coisa. Era assim que ela aprendia as línguas.
Apesar de tudo isso, não era a
sua inteligência ou a sua dedicação que a destacavam: ela conseguia ver coisas
que as outras pessoas não viam. Possuía uma lógica implacável e um raciocínio
sempre muito sólido, assim sempre tinha uma opinião acertada sobre os assuntos
mais traiçoeiros. Ela poderia convencer qualquer pessoa de algo que ela
considerasse digno de defesa. Debater com ela era simplesmente frustrante. Ela
tinha uma habilidade incrível de conduzir as discussões mais complicadas para os
campos mais favoráveis. Era bonito se ver como todo esse talento era utilizado
com uma inocência e um senso de justiça tão aguçados. Ela ia ser uma ótima
advogada. Aliás, esse era seu grande sonho. Defender pessoas injustiçadas.
Depois de viver todos aqueles anos na favela e ver como seus irmãos de pobreza
nunca tinham quem os defendesse de maneira igualitária, ela tinha resolvido que
ia fazer a diferença. Ela só se lamentava ter que esperar tanto tempo, ainda
tinha 17 anos. Imaginava-se entrando no tribunal. No banco dos réus, o Tonho da
25, acusado de ter roubado um saco de arroz do hipermercado de um bacana.
Defendendo o bacana, um advogado vestindo um terno Armani, com sapatos de couro
de jacaré e um olhar arrogante estampado na cara. Ela iria acabar com esse tipo
de gente. Iria fazer um discurso inflamado e emocionante sobre a família do
Tonho, sobre a Jéhssyca, sua filhinha de 2 anos, sobre as dificuldades que ele
tinha passado na vida, sobre como o Tonho não tinha nada, sobre como o próprio
bacana ostentava sua fartura e sobre como a culpa, no fim das contas, era do
estado. Eles iriam ver só. Mais alguns anos e a galera do morro não ia precisar
mais se preocupar (se fossem inocentes, porque ela também não ia estudar pra
defender traficante). Tudo ia ser diferente. Pra ela e pra todos os outros.
“Infelizmente, a Dehborah tem esse problema”, reconheciam todos que
a conheciam. Um problema seríssimo. Um problema que a fez perder a vaga de
estagiária na sua primeira entrevista de emprego para uma garota de notas
sofríveis em uma faculdade particular da zona sul de São Paulo. Um problema que
a impossibilitou terminar sua faculdade, visto que não conseguia emprego, e que
a obrigou a trabalhar na quitanda do Nando (“trabalho muito digno”, dizia ela, “mas que não me preenche...”). Um problema que a inibia de tal
maneira diante das outras pessoas, que foram poucos os que tiveram o prazer de
assistir a Implacável Lógica de Deborah em ação.
O problema? Uma deficiência
dentária. Devido a uma má formação ocasionada por uma combinação de genética e
anos sem cuidados profissionais, a sua arcada dentária superior se projetava para
frente de maneira que seus lábios dificilmente escondiam os protuberantes
dentes, lhe conferindo o aspecto de uma morsa-mãe ou de um desenho animado de mau
gosto.
“Deus e suas piadas”, diziam sua mãe e seus irmãos. Mas Dehborah, a
menina que via o que os outros não viam, sabia que a culpa não era dos seus
dentes.
Por Vitor Martinez de Mello.


















