Não era o John Lennon, nem o
Justin Bieber. De qualquer maneira, um mar de gente o cercava naquele dia. Na
verdade, multidões o seguiam por onde quer que ele passasse. Ele tinha fama de
milagreiro, era eloquente (suas frases já bombaram no Mirc, ICQ, Orkut, e é
sucesso absoluto no Twitter e Facebook) e sua visão de mundo era
desconcertante. No meio do povo, gente de todo tipo. Gente que gritava seu
nome, gente que fazia a “ôla”. Ambulantes vendendo comida árabe, muitos
mendigos pedindo esmola, outros tantos que nem sabiam o que estava rolando e só
queriam bater carteira. Gente de pé, gente ajoelhada, gente deitada. Gente
jovem, gente velha, gente rica, gente pobre e muita, muita criança correndo (e,
consequentemente, muito pai que perdeu o filho). Tinha gente que chorava
desesperadamente por uma chance de tocar nele, gente que xingava, gente que
cantava, gente que pulava, gente que protestava. Era gente que não acabava
mais! A grande maioria estava ali pra ver e ouvir o cara.
Quem estava louco com isso era a
galera mais chegada do homem. Aquela gente toda os pegou desprevenidos. Não
tinha dado tempo de organizar uma fila, distribuir senhas, encontrar um lugar
com uma acústica legal nem nada: a “audiência” ia ter que rolar ali mesmo. O
pior de tudo é que não houve tempo hábil pra preparar um esquema de segurança e
aquilo tudo estava um caos. O pessoal da organização formou um cordão de
isolamento em volta do grande sábio. Alguns verificavam quais eram os casos
mais importantes e conduziam a pessoa até o mestre. Só que algumas pessoas de
vez em quando furavam a barreira de segurança e corriam pra falar com a
celebridade. Dois homens da organização foram, então, destacados pra cuidar
dessas pessoas e devolvê-las à multidão. Pelo sábio, poderiam deixar todos
virem de uma vez, ele não gostava de parecer estrela, mas ali era uma questão
de vida ou morte. Sem aquele cordão de isolamento, provavelmente ele já estaria
morto, pisoteado e os ambulantes estariam vendendo pedaços do seu corpo como
souvenir.
De repente um menino passou
correndo pela galera da organização e voou em direção ao homem. A multidão fez
um momento de silêncio, a tensão suspensa no ar. “Vem cá, muleque!”, gritou o
mais turrão dos organizadores. “Relaxa”, respondeu o sábio, “vem cá menino,
toca aqui... COXINHA!” A multidão caiu na gargalhada, o menino contrariado
driblou o segurança e voltou pra multidão, e o caos voltou com força ainda
maior.
Olhando pra aquela multidão toda,
o sábio subiu em um morro ali perto e se sentou. Sem precisar falar nada, a
gentalha fez silêncio na hora. Os chorosos, mendigos, ladrões, ambulantes,
doentes, peregrinos, todos em silêncio. Alguma coisa iria acontecer. O pessoal
mais chegado do mestre se aproximou e também se sentou. O Homem pigarreou. “Ele
pigarreou! Ele pigarreou! Shhhh!” Em seguida, coçou a cabeça. “E coçou a
cabeça! Coçou a cabeça! Shhhh!” Cansado daquilo, começou a falar:
“Bem-aventurados os pobres em
espírito, pois é deles o reino dos céus.” Uma ôla cortou a multidão:
“AêêêêêêÊÊêêêê!”, gritaram. “É nóis!”
“Bem-aventurados os que choram,
porque eles serão consolados.” “Uhuuuuulllllll!”, exclamou quase metade daquela
gente. “Ninguém segura a gente!”
“Bem-aventurados os humildes,
pois herdarão toda a terra.” “Ahá! Uhú! É tudo nossooooo!” Eles quase não se
continham. “Toma essa, Lula!”, diziam uns aos outros.
“Bem-aventurados aqueles que têm
fome e sede de justiça, pois vão ser saciados.” “Progresso!”, vociferou um
jovem, e algumas palmas se seguiram.
“Bem-aventurados os
misericordiosos e os puros de coração...” Uma criança começou a chorar.
“Bem-aventurados os pacificadores...” “Oooolha o kibkibkibkibkibkibêe!”
“Bem-aventurados os que são
perseguidos por causa da justiça...” Um tomate voou bem na cabeça do segurança
que tinha corrido atrás do menino e o povo caiu na gargalhada.
“Bem-aventurados vocês serão
quando falarem mal de vocês e lhes injustiçarem por minha causa...” Poucos eram
os que terminaram de ouvir essa frase. Já era tarde e a galera estava com fome.
Algumas vaias ainda ecoavam e os comentários de desaprovação pipocavam.
O menino “da coxinha” ficou
olhando de longe, meio sem saber o que pensar. Tinha curtido o moço. Voltou pra
casa e ouviu a mãe, que o tinha perdido na multidão, conversando com o pai. “E
aí? Como foi?” “Dessa vez não teve nada pra comer.”
Por Vitor Martinez de Mello.


















