SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 17 de out. de 2012
O Grande Sábio.
Não era o John Lennon, nem o Justin Bieber. De qualquer maneira, um mar de gente o cercava naquele dia. Na verdade, multidões o seguiam por onde quer que ele passasse. Ele tinha fama de milagreiro, era eloquente (suas frases já bombaram no Mirc, ICQ, Orkut, e é sucesso absoluto no Twitter e Facebook) e sua visão de mundo era desconcertante. No meio do povo, gente de todo tipo. Gente que gritava seu nome, gente que fazia a “ôla”. Ambulantes vendendo comida árabe, muitos mendigos pedindo esmola, outros tantos que nem sabiam o que estava rolando e só queriam bater carteira. Gente de pé, gente ajoelhada, gente deitada. Gente jovem, gente velha, gente rica, gente pobre e muita, muita criança correndo (e, consequentemente, muito pai que perdeu o filho). Tinha gente que chorava desesperadamente por uma chance de tocar nele, gente que xingava, gente que cantava, gente que pulava, gente que protestava. Era gente que não acabava mais! A grande maioria estava ali pra ver e ouvir o cara.

Quem estava louco com isso era a galera mais chegada do homem. Aquela gente toda os pegou desprevenidos. Não tinha dado tempo de organizar uma fila, distribuir senhas, encontrar um lugar com uma acústica legal nem nada: a “audiência” ia ter que rolar ali mesmo. O pior de tudo é que não houve tempo hábil pra preparar um esquema de segurança e aquilo tudo estava um caos. O pessoal da organização formou um cordão de isolamento em volta do grande sábio. Alguns verificavam quais eram os casos mais importantes e conduziam a pessoa até o mestre. Só que algumas pessoas de vez em quando furavam a barreira de segurança e corriam pra falar com a celebridade. Dois homens da organização foram, então, destacados pra cuidar dessas pessoas e devolvê-las à multidão. Pelo sábio, poderiam deixar todos virem de uma vez, ele não gostava de parecer estrela, mas ali era uma questão de vida ou morte. Sem aquele cordão de isolamento, provavelmente ele já estaria morto, pisoteado e os ambulantes estariam vendendo pedaços do seu corpo como souvenir.

De repente um menino passou correndo pela galera da organização e voou em direção ao homem. A multidão fez um momento de silêncio, a tensão suspensa no ar. “Vem cá, muleque!”, gritou o mais turrão dos organizadores. “Relaxa”, respondeu o sábio, “vem cá menino, toca aqui... COXINHA!” A multidão caiu na gargalhada, o menino contrariado driblou o segurança e voltou pra multidão, e o caos voltou com força ainda maior.

Olhando pra aquela multidão toda, o sábio subiu em um morro ali perto e se sentou. Sem precisar falar nada, a gentalha fez silêncio na hora. Os chorosos, mendigos, ladrões, ambulantes, doentes, peregrinos, todos em silêncio. Alguma coisa iria acontecer. O pessoal mais chegado do mestre se aproximou e também se sentou. O Homem pigarreou. “Ele pigarreou! Ele pigarreou! Shhhh!” Em seguida, coçou a cabeça. “E coçou a cabeça! Coçou a cabeça! Shhhh!” Cansado daquilo, começou a falar:

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus.” Uma ôla cortou a multidão: “AêêêêêêÊÊêêêê!”, gritaram. “É nóis!”

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.” “Uhuuuuulllllll!”, exclamou quase metade daquela gente. “Ninguém segura a gente!”

“Bem-aventurados os humildes, pois herdarão toda a terra.” “Ahá! Uhú! É tudo nossooooo!” Eles quase não se continham. “Toma essa, Lula!”, diziam uns aos outros.

“Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de justiça, pois vão ser saciados.” “Progresso!”, vociferou um jovem, e algumas palmas se seguiram.

“Bem-aventurados os misericordiosos e os puros de coração...” Uma criança começou a chorar. “Bem-aventurados os pacificadores...” “Oooolha o kibkibkibkibkibkibêe!”

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça...” Um tomate voou bem na cabeça do segurança que tinha corrido atrás do menino e o povo caiu na gargalhada.

“Bem-aventurados vocês serão quando falarem mal de vocês e lhes injustiçarem por minha causa...” Poucos eram os que terminaram de ouvir essa frase. Já era tarde e a galera estava com fome. Algumas vaias ainda ecoavam e os comentários de desaprovação pipocavam.

O menino “da coxinha” ficou olhando de longe, meio sem saber o que pensar. Tinha curtido o moço. Voltou pra casa e ouviu a mãe, que o tinha perdido na multidão, conversando com o pai. “E aí? Como foi?” “Dessa vez não teve nada pra comer.”


Por Vitor Martinez de Mello.