SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 10 de out. de 2012
A Festa de Aniversário.
Era o ano de 1996, era o mês de outubro e era o dia 27. Era o meu aniversário. Eu estava completando incríveis nove anos. Daqui a pouco estaria tirando carta!

Eu estava ansioso. Naqueles idos anos, o aniversário era um evento de suma importância. Conheci uma menina que comemorou seu aniversário em uma chácara com cavalos, pula-pula e máquina de sorvete; e a festa foi um sucesso tão grande que anos mais tarde ela usou o prestígio conseguido em seu aniversário de 10 anos para se eleger deputada federal. Também conheci a história de um garoto da minha idade, chamado Luís Henrique, que comemorou seu aniversário com uma grande festa em sua casa com direito a trenzinho e tudo. A festa ia a mil maravilhas até que um primo mais velho começou a mostrar pra os seus coleguinhas fotos de quando Luís Henrique era bebê. O riso foi generalizado e, no dia seguinte, foi motivo de chacota na escola. Um apelido, Pingulim, foi dado e a humilhação que se seguiu nos próximos meses foi tanta que ele teve que mudar de escola. Não adiantou: o apelido o perseguiu por todas as nove escolas que ele passou até que não restou outra alternativa senão o ensino domiciliar. Sua mãe teve que largar o emprego, a crise financeira veio e o Luís Henrique começou a vender jujubas na esquina da rua Bady Bassit com a Dr. Herculano. Triste...

Como vocês podem ver, festa de aniversário era assunto sério; questão de vida ou morte. Eu estava muito empolgado. Eu ia arrasar. Minha mãe, uma santa, ia inovar: cachorro-quente. Mas não um cachorro-quente qualquer, não... Ia ser um self-service de cachorro-quente! Cada um iria montar o seu próprio lanche! Naquela época isso não existia... Iria representar uma nova era para os meus relacionamentos interpessoais. Convenhamos que eu não era uma unanimidade na escola, mas aquela festa iria destruir qualquer barreira ou oposição.

As bexigas estavam impecáveis. Não eram azuis, pra não parecer bebezinho da mamãe; nem vermelhas (elas sempre ficam rosas quando se enche demais); muito menos cinzas, afinal eu tinha nove anos. Verdes. Da cor do verdão. Macho. Na medida certa.

As Coca-Colas estavam trincando. Não eram de 2 litros, pra não fazer sujeira; nem diet, porque diet era coisa de velho. Garrafa de vidro, 290ml. Intimistas, abridores espalhados pelas mesas (treinei uma semana abrir com a boca – ia ser um arraso...). Meninos bebendo no bico (macho!), meninas bebendo de canudinho (meninas...).

Na mesa do cachorro-quente as salsichas, os molhos, catchup, mostarda, muita maionese, toneladas de batata palha, pão de leite e, crème de la crème, forminhas de isopor.

Eu passeava entre as mesas durante toda a tarde supervisionando o trabalho da minha mãe e da Salete, secretária lá de casa (“E eu lá sou sua empregada, moleque?”, grita ela ainda hoje). O pessoal logo chegaria. Eu tinha convidado todo mundo do 3º A (minha sala), 3º B e 3º C. Eram 17h, eu tinha colocado 18h no convite. Naquela época o que bombava era chegar na hora. Estava tudo perfeito. Não tinha como dar errado.

Tinha. 18h, 18h30, 19h. Chegaram meus tios, meus primos, o Rodnei (vizinho da frente), amigos dos meus pais que eu nem conhecia, alguns amigos da minha irmã e do meu irmão, e mais uma rempa de gente velha. Ninguém da minha escola apareceu. Só o Luís Henrique (ele só ia virar o Pingulim no ano seguinte). Ninguém foi. Crianças sabem ser cruéis. Combinaram de ninguém aparecer (esqueceram de falar com o Luís).

Naquela época eu não sabia que sensação era aquela que eu estava sentindo. Hoje eu sei: era a faca da rejeição que foi entrando devagarzinho... Len-ta-men-te... E depois torceu dentro do peito. Ao relembrar aquele dia, ainda sinto latejar a cicatriz. No outro dia, na escola, todo mundo ia ter uma desculpa.

Mas no fim da tarde do dia 27 de outubro de 1996 eu cheguei à terrível e fatídica conclusão que me tornaria muito do que sou hoje: o problema era eu. Chorei pra caralho. E choro de homem. 

PS. Um leitor mais atento deve ter percebido que meu aniversário está chegando, então fica a dica. Meu telefone é (17) 78126200. ;)


Por Vitor Martinez de Mello.