SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 3 de out. de 2012
Aprendido na Rua.
Dois jovens descem a rua em direção à rodoviária. Acabaram de chegar de São Paulo. O mais alto, antes de descer em frente a lanchonete da qual eles estão vindo agora, pegou uma carona, dois metrôs e mais uma hora de ônibus até chegar no seu destino. Na lanchonete o mais baixo já esperava há algum tempo, tendo, inclusive, já comido seu lanche. O lanche do mais alto estava pronto. Pegou uma latinha de coca-cola, colocou ambos, lanche e latinha, em uma sacolinha e desceu para a rodoviária onde pegariam um taxi até a faculdade onde moram e estudam.

Já é 1h30 da matina e o ambiente estava meio sinistro. Em um banco, um mendigo bêbado cantando, gritando e profetizando. Na sarjeta, oito cachorros em volta de uma cadela. No ponto de táxi, nenhum táxi. Só um carro encostado, dois homens conversando. Um perguntou se estavam querendo um táxi. “Não, queremos um táxi”, disse o mais alto. O homem riu. O mais alto é um cara bem engraçado às vezes. O homem pegou o celular, fez uma ligação e disse que um táxi ia chegar em alguns minutos. Esperaram.

A conversa entre o mais alto e o mais baixo girava em torno de um assunto interessante: homens que vivem para cuidar de outras pessoas devem ter empregos paralelos? O mais baixo é contra. Ele acha que homens que se propõem a viver para cuidar dos outros devem viver exclusivamente para isso, e o emprego poderia tirar o foco desse verdadeiro “chamado superior”. O sustento? Deve vir justamente daí.

O mais alto é a favor. Ele não vê como um emprego pode ser um empecilho ao intuito de se preocupar com as pessoas, de viver para os outros. A bem da verdade, ele não vê como uma coisa pode competir com a outra. Ele acha que é tudo uma coisa só. Uma coisa é extensão das outras. Ele acredita que viver para os outros tem menos a ver com o que ele faz e mais a ver com o que ele é. Mas ele não argumentou nada disso. Ele só assentia com a cabeça para o mais baixo. Na verdade, estava com fome e o táxi não chegava.

“Vou comer”, disse o mais alto. “Come aí”, respondeu o mais baixo. Abriu a sacola, tirou o lanche, a latinha e os sachês de maionese. Com o canto do olho, o mais alto viu o mendigo no banco a alguns metros de distância. “Nem estou com tanta fome assim...”, pensou. Mas ele sabia onde esse pensamento ia dar. Tinha pago doze reais, não ia dar o lanche. Rapidamente, antes que a ideia tomasse corpo e não tivesse mais volta, ele entrou no piloto automático. Anestesiar a mente é uma arte em voga. Mordeu uma, duas vezes. Abriu o sachê, colocou maionese, mordeu mais algumas vezes. Com o canto do olho, viu o mendigo, não mais sentado, olhando para ele. Como resposta, deu uma mordida ainda maior. E conseguiu manter o controle da situação.

Terminou de comer e chupou os dedos. Depois pensou que não precisava ter chupado os dedos, mas chupou. O mendigo agora gesticulava com as mãos para o alto, cantando uma canção triste. O táxi não chegava. O estômago estava cheio, mas o que pesava era a consciência. O mendigo, na sua dança cambaleante, gestos desconexos e palavras entrecortadas, se aproximava aos poucos. “Não vem, não vem, não vem”, torcia o mais alto.

O mais baixo ainda discorria, sob o acenar da cabeça do mais alto, da importância que é cuidar dos necessitados e da necessidade de que existam pessoas que se dediquem exclusivamente a isso. “Existe muito trabalho a ser feito para que nós ainda tenhamos que nos dedicar a outros empregos”, dizia ele obstinadamente.

Um carro virou a esquina. Era o táxi. Parou do outro lado da rua. Talvez encorajado pelo ronco do motor que quebrava o silêncio da rua às 2h30 da manhã, o mendigo se aproximou de vez e decidiu dirigir-se aos jovens. Ele não pediu dinheiro. Não pediu comida. “Como eu queria que ele tivesse me pedido dinheiro ou comida”, pensou, mais tarde, chorando, o mais alto. Não. O mais baixo na frente, o mais alto atrás, atravessando a rua para entrar no táxi. “Jovem”, disse o mendigo para o primeiro. Desconfio que o estrabismo não teve nada a ver com a indiferença que o mais baixo demonstrou. Olhando para a nuca do mais baixo, o mendigo agora chorava. Apontava para seus próprios olhos e dizia:

“Por favor, só me olhe nos olhos.”

O mais baixo entrou no táxi.

Homens durante toda a história da humanidade têm conjecturado sobre os tempos antigos. Se pudessem voltar no tempo, alguns voltariam para antes de Hitler subir ao poder, outros para a Europa do século 18 no auge do Iluminismo, outros ainda para a descoberta do fogo. O mais alto voltaria para antes da primeira mordida.

O mendigo agora olhava pra ele. Chorando, repetia: “Por favor, só me olhe nos olhos.” O mais alto olhou. Olhou o mais fundo que podia daqueles olhos vermelhos. Pegou na mão do mendigo e disse: “Deus te abençoe.”

“Deus te abençoe?”, pensou depois. O mendigo sorriu banguelamente e rompeu em pranto. Ficou na ponta dos pés, abraçou o abraço mais verdadeiro e caloroso que o mais alto se lembra de ter recebido. Beijou o beijo mais verdadeiro e caloroso que o mais alto se lembra de ter ganhado. “Eu não mereço”, pensou o mais alto, “eu não mereço”. E não merecia. Mas o mendigo sabia, aprendido na rua, que cada um dá o que tem.

Disse então algumas palavras e saiu cambaleando, feliz da vida o mendigo, porque descobriu que não era invisível.

Por Vitor Martinez de Mello.