Aprendido na Rua.
Dois jovens descem a rua em direção à rodoviária. Acabaram
de chegar de São Paulo. O mais alto, antes de descer em frente a lanchonete da
qual eles estão vindo agora, pegou uma carona, dois metrôs e mais uma hora de
ônibus até chegar no seu destino. Na lanchonete o mais baixo já esperava há
algum tempo, tendo, inclusive, já comido seu lanche. O lanche do mais alto
estava pronto. Pegou uma latinha de coca-cola, colocou ambos, lanche e latinha,
em uma sacolinha e desceu para a rodoviária onde pegariam um taxi até a
faculdade onde moram e estudam.
Já é 1h30 da matina e o ambiente estava meio sinistro. Em um
banco, um mendigo bêbado cantando, gritando e profetizando. Na sarjeta, oito
cachorros em volta de uma cadela. No ponto de táxi, nenhum táxi. Só um carro
encostado, dois homens conversando. Um perguntou se estavam querendo um táxi.
“Não, queremos um táxi”, disse o mais alto. O homem riu. O mais alto é um cara
bem engraçado às vezes. O homem pegou o celular, fez uma ligação e disse que um
táxi ia chegar em alguns minutos. Esperaram.
A conversa entre o mais alto e o mais baixo girava em torno
de um assunto interessante: homens que vivem para cuidar de outras pessoas
devem ter empregos paralelos? O mais baixo é contra. Ele acha que homens que se
propõem a viver para cuidar dos outros devem viver exclusivamente para isso, e
o emprego poderia tirar o foco desse verdadeiro “chamado superior”. O sustento?
Deve vir justamente daí.
O mais alto é a favor. Ele não vê como um emprego pode ser
um empecilho ao intuito de se preocupar com as pessoas, de viver para os
outros. A bem da verdade, ele não vê como uma coisa pode competir com a outra. Ele
acha que é tudo uma coisa só. Uma coisa é extensão das outras. Ele acredita que
viver para os outros tem menos a ver com o que ele faz e mais a ver com o que
ele é. Mas ele não argumentou nada disso. Ele só assentia com a cabeça para o
mais baixo. Na verdade, estava com fome e o táxi não chegava.
“Vou comer”, disse o mais alto. “Come aí”, respondeu o mais
baixo. Abriu a sacola, tirou o lanche, a latinha e os sachês de maionese. Com o
canto do olho, o mais alto viu o mendigo no banco a alguns metros de distância.
“Nem estou com tanta fome assim...”, pensou. Mas ele sabia onde esse pensamento
ia dar. Tinha pago doze reais, não ia dar o lanche. Rapidamente, antes que a
ideia tomasse corpo e não tivesse mais volta, ele entrou no piloto automático.
Anestesiar a mente é uma arte em voga. Mordeu uma, duas vezes. Abriu o sachê,
colocou maionese, mordeu mais algumas vezes. Com o canto do olho, viu o
mendigo, não mais sentado, olhando para ele. Como resposta, deu uma mordida
ainda maior. E conseguiu manter o controle da situação.
Terminou de comer e chupou os dedos. Depois pensou que não
precisava ter chupado os dedos, mas chupou. O mendigo agora gesticulava com as
mãos para o alto, cantando uma canção triste. O táxi não chegava. O estômago
estava cheio, mas o que pesava era a consciência. O mendigo, na sua dança
cambaleante, gestos desconexos e palavras entrecortadas, se aproximava aos
poucos. “Não vem, não vem, não vem”, torcia o mais alto.
O mais baixo ainda discorria, sob o acenar da cabeça do mais
alto, da importância que é cuidar dos necessitados e da necessidade de que
existam pessoas que se dediquem exclusivamente a isso. “Existe muito trabalho a
ser feito para que nós ainda tenhamos que nos dedicar a outros empregos”, dizia
ele obstinadamente.
Um carro virou a esquina. Era o táxi. Parou do outro lado da
rua. Talvez encorajado pelo ronco do motor que quebrava o silêncio da rua às
2h30 da manhã, o mendigo se aproximou de vez e decidiu dirigir-se aos jovens.
Ele não pediu dinheiro. Não pediu comida. “Como eu queria que ele tivesse me
pedido dinheiro ou comida”, pensou, mais tarde, chorando, o mais alto. Não. O
mais baixo na frente, o mais alto atrás, atravessando a rua para entrar no
táxi. “Jovem”, disse o mendigo para o primeiro. Desconfio que o estrabismo não
teve nada a ver com a indiferença que o mais baixo demonstrou. Olhando para a
nuca do mais baixo, o mendigo agora chorava. Apontava para seus próprios olhos
e dizia:
“Por favor, só me olhe nos olhos.”
O mais baixo entrou no táxi.
Homens durante toda a história da humanidade têm
conjecturado sobre os tempos antigos. Se pudessem voltar no tempo, alguns
voltariam para antes de Hitler subir ao poder, outros para a Europa do século
18 no auge do Iluminismo, outros ainda para a descoberta do fogo. O mais alto voltaria
para antes da primeira mordida.
O mendigo agora olhava pra ele. Chorando, repetia: “Por
favor, só me olhe nos olhos.” O mais alto olhou. Olhou o mais fundo que podia
daqueles olhos vermelhos. Pegou na mão do mendigo e disse: “Deus te abençoe.”
“Deus te abençoe?”, pensou depois. O mendigo sorriu
banguelamente e rompeu em pranto. Ficou na ponta dos pés, abraçou o abraço mais
verdadeiro e caloroso que o mais alto se lembra de ter recebido. Beijou o beijo
mais verdadeiro e caloroso que o mais alto se lembra de ter ganhado. “Eu não
mereço”, pensou o mais alto, “eu não mereço”. E não merecia. Mas o mendigo
sabia, aprendido na rua, que cada um dá o que tem.
Disse então algumas palavras e saiu cambaleando, feliz da
vida o mendigo, porque descobriu que não era invisível.
Por Vitor Martinez de Mello.


















