SESSÃO: Conversa de Boteco - Por Bruna Tamanini

» Postado por: - Categorias: | 25 de set. de 2012
Bom, o texto de hoje é um pouco mais pesado do que os que eu estou acostumada a escrever, mas a coluna é minha e eu escrevo sobre o que eu quero, de fato (risos). O que me levou a escrever sobre esse tema foram dois textos interessantíssimos, um da Aline Valek e outro da Paula Abreu para o blog Papo de Homem. Colocarei o link de cada texto no fim desse post. Enfim, leiam sem preconceito.

Aí a gente tá andando tranquilamente e de repente ouve um latido que diz: "Gostosa!", "delícia". É normal e a gente finge que nem ouviu... "Que isso, gata, vai virar a cara?". Sim, senhor, vou virar a cara porque não sou obrigada a ser chamada de gostosa e achar bonito - a gente pensa, mas não fala. "Nossa essa mulher é difícil". Não, pra você eu sou impossível mesmo - mais uma vez pensamos e falar, que é bom, nada.
É nesse momento, nesse momento bobo, rotineiro, quando estamos andando na rua e somos rotuladas que a invasão acontece. Alguns homens diriam: "Ah! Quanta hipocrisia... Vocês bem que gostam de serem chamadas de gostosas". Vocês não estão totalmente errados em pensar assim, mas entendam, ser chamada de gostosa pelo namorado ou por qualquer pessoa que tenha liberdade para isso, tudo bem, é encarado como um elogio e o nosso ego até infla. Mas ser chamada de gostosa por um cara que você nunca viu na vida, que tá lá na rua, é um qualquer e não tem a mínima intimidade pra lhe invadir o espaço? Os demais que me desculpem, mas eu repudio essa situação. E esse cara que você nunca viu te olha como se você fosse um pedaço de carne suculento e mal passado, pingando sangue, pronto pra ser devorado. Ele até saliva só de olhar para as suas curvas como se fosse, literalmente, comê-la.
Me arrisco a dizer que tudo isso é uma forma de estupro. Não entendam "estupro" no significado real e próprio da palavra (SEXO sem consentimento), entendam "estupro" como uma invasão, fazer algo com alguém sem sua aprovação, não necessariamente sexo.
Não estou falando que os homens, ou as pessoas em geral, devam parar de olhar umas para as outras na rua e “paquerar”, mas tem que haver um bom senso. Nós, mulheres, não somos como as propagandas de cerveja nos rotulam – gostosas e... gostosas –, ao mesmo tempo que também não somos o projeto perfeito de mãe e dona de casa que vendem as propagandas de margarina ou de produtos de limpeza. É claro que deve haver uma parcela de mulheres que gostam dessa invasão (“gostosa”, “delícia” etc), e tudo bem, mas eu não. Me sinto desvalorizada e parece que não tenho mais nenhum atributo, a não ser o meu corpo. E é por essa extrema valorização do carnal que homens são conquistados por peitos e bundas e as mulheres usam vestidos cada vez mais curtos. Não que apreciar peitos e bundas seja errado. Não que usar roupas curtas seja errado. Não é. Se você, mulher, gosta, ótimo, use e abuse, mas não ache que é só isso que você tem a oferecer. Você tem um cérebro e pode muito bem utilizá-lo a seu favor. Usar uma roupa mais curta, estar bonita para si não é um erro. O erro está na cabeça de quem se resume a isso: um vestido colado e só. O erro está também na cabeça do homem que acha que pode te assediar, porque, segundo ele, “mulher que se veste assim está pedindo pra ser chamada de vagabunda”. Não, não estamos pedindo para sermos chamadas de vagabundas quando usamos uma roupa curta ou colada. Estamos pedindo para sermos respeitadas. O corpo é meu e a vontade é minha, portanto você não deve se achar no direito de me ofender. Nenhuma mulher sai no meio da rua falando do seu corpo quando você anda sem camisa. Ainda não se comoveu? Pense na sua mãe, ou melhor na sua filha, aquela menina linda que você vai criar – ou está criando – com o maior amor do mundo, ela é sua princesa... Daí ela cresce e quando tiver 14, 15 anos, já será a “gostosa”, a “delícia”, será comida com os olhos, será só mais um pedaço de carne. Atraente, não? Não. Então.
Toda mulher gosta de elogio, mas saibam como elogiar. Tenham bom senso, sejam respeitosos. E mulheres, se deem o respeito, por mais que "se dar o respeito" seja algo relativo.
Não estou generalizando, não estou dizendo que todo homem age dessa maneira, apenas estou compartilhando com vocês, uma visão realista do que hoje acontece. Por mais que seja um assovio, um "gostosa", uma mão na bunda ou um puxão de cabelo é uma invasão, é um estupro, é fazer algo com alguém sem o consetimento dessa pessoa. O estupro começa assim... Uma mão mais forte no pulso, um puxão - a mulher reluta, se afasta, não quer -, de nada adianta.

O texto da Paula Abreu cita NÚMEROS, portanto, fatos, incontestáveis: "[...] A cada doze segundos – SEGUNDOS – uma mulher é estuprada no Brasil. A cada quinze segundos uma mulher é espancada por um homem, também no Brasil. Aproximadamente uma em cada três mulheres sexualmente ativas já sofreu agressão física ou sexual por um parceiro. Uma em cada 3 mulheres NO PLANETA já foram espancadas, estupradas ou submetidas a outro tipo de abuso. De cada cinco mulheres no mundo, uma será vítima ou sofrerá uma tentativa de estupro até o fim da sua vida. O meu estupro é só mais um em UM BILHÃO no planeta. Sim, esse número é real. Um bilhão. [...]".

Por fim, acho que esse texto serve para democratizar um assunto que talvez muitas mulheres desconheçam ou fijam desconhecer. É preciso falar. Calar não resolverá o problema. E você, homem, que se vê diferente, não se identificou com o texto, meus parabéns. E se você achou esse texto uma tremenda besteira, sendo homem ou mulher, reveja suas atitudes e seus conceitos.

Textos que me inspiraram a escrever este post:
Aline ValekQuem me estuprou
Paula AbreuFui estuprada


Por Bruna Tamanini. Acessem: descendoacachoeira.tumblr.com