Bom, o texto de hoje é um pouco mais pesado
do que os que eu estou acostumada a escrever, mas a coluna é minha e eu escrevo
sobre o que eu quero, de fato (risos). O que me levou a escrever sobre esse
tema foram dois textos interessantíssimos, um da Aline Valek e outro da Paula
Abreu para o blog Papo de Homem. Colocarei o link de cada texto no fim desse
post. Enfim, leiam sem preconceito.
Aí a gente tá andando tranquilamente e de
repente ouve um latido que diz: "Gostosa!", "delícia". É
normal e a gente finge que nem ouviu... "Que isso, gata, vai virar a
cara?". Sim, senhor, vou virar a cara porque não sou obrigada a ser
chamada de gostosa e achar bonito - a gente pensa, mas não fala. "Nossa
essa mulher é difícil". Não, pra você eu sou impossível mesmo - mais uma
vez pensamos e falar, que é bom, nada.
É nesse momento, nesse momento bobo,
rotineiro, quando estamos andando na rua e somos rotuladas que a invasão
acontece. Alguns homens diriam: "Ah! Quanta hipocrisia... Vocês bem que
gostam de serem chamadas de gostosas". Vocês não estão totalmente errados
em pensar assim, mas entendam, ser chamada de gostosa pelo namorado ou por
qualquer pessoa que tenha liberdade para isso, tudo bem, é encarado como um
elogio e o nosso ego até infla. Mas ser chamada de gostosa por um cara que você
nunca viu na vida, que tá lá na rua, é um qualquer e não tem a mínima
intimidade pra lhe invadir o espaço? Os demais que me desculpem, mas eu repudio
essa situação. E esse cara que você nunca viu te olha como se você fosse um
pedaço de carne suculento e mal passado, pingando sangue, pronto pra ser
devorado. Ele até saliva só de olhar para as suas curvas como se fosse,
literalmente, comê-la.
Me arrisco a dizer que tudo isso é uma forma
de estupro. Não entendam "estupro" no significado real e próprio da
palavra (SEXO sem consentimento), entendam "estupro" como uma
invasão, fazer algo com alguém sem sua aprovação, não necessariamente sexo.
Não estou falando que os homens, ou as
pessoas em geral, devam parar de olhar umas para as outras na rua e “paquerar”,
mas tem que haver um bom senso. Nós, mulheres, não somos como as propagandas de
cerveja nos rotulam – gostosas e... gostosas –, ao mesmo tempo que também não
somos o projeto perfeito de mãe e dona de casa que vendem as propagandas de
margarina ou de produtos de limpeza. É claro que deve haver uma parcela de
mulheres que gostam dessa invasão (“gostosa”, “delícia” etc), e tudo bem, mas
eu não. Me sinto desvalorizada e parece que não tenho mais nenhum atributo, a
não ser o meu corpo. E é por essa extrema valorização do carnal que homens são
conquistados por peitos e bundas e as mulheres usam vestidos cada vez mais
curtos. Não que apreciar peitos e bundas seja errado. Não que usar roupas
curtas seja errado. Não é. Se você, mulher, gosta, ótimo, use e abuse, mas não
ache que é só isso que você tem a oferecer. Você tem um cérebro e pode muito
bem utilizá-lo a seu favor. Usar uma roupa mais curta, estar bonita para si não
é um erro. O erro está na cabeça de quem se resume a isso: um vestido colado e
só. O erro está também na cabeça do homem que acha que pode te assediar,
porque, segundo ele, “mulher que se veste assim está pedindo pra ser chamada de
vagabunda”. Não, não estamos pedindo para sermos chamadas de vagabundas quando
usamos uma roupa curta ou colada. Estamos pedindo para sermos respeitadas. O
corpo é meu e a vontade é minha, portanto você não deve se achar no direito de
me ofender. Nenhuma mulher sai no meio da rua falando do seu corpo quando você
anda sem camisa. Ainda não se comoveu? Pense na sua mãe, ou melhor na sua
filha, aquela menina linda que você vai criar – ou está criando – com o maior
amor do mundo, ela é sua princesa... Daí ela cresce e quando tiver 14, 15 anos,
já será a “gostosa”, a “delícia”, será comida com os olhos, será só mais um
pedaço de carne. Atraente, não? Não. Então.
Toda mulher gosta de elogio, mas saibam como
elogiar. Tenham bom senso, sejam respeitosos. E mulheres, se deem o respeito,
por mais que "se dar o respeito" seja algo relativo.
Não estou generalizando, não estou dizendo
que todo homem age dessa maneira, apenas estou compartilhando com vocês, uma
visão realista do que hoje acontece. Por mais que seja um assovio, um
"gostosa", uma mão na bunda ou um puxão de cabelo é uma invasão, é um
estupro, é fazer algo com alguém sem o consetimento dessa pessoa. O estupro
começa assim... Uma mão mais forte no pulso, um puxão - a mulher reluta, se
afasta, não quer -, de nada adianta.
O texto da Paula Abreu cita NÚMEROS,
portanto, fatos, incontestáveis: "[...] A cada doze segundos – SEGUNDOS –
uma mulher é estuprada no Brasil. A cada quinze segundos uma mulher é espancada
por um homem, também no Brasil. Aproximadamente uma em cada três mulheres
sexualmente ativas já sofreu agressão física ou sexual por um parceiro. Uma em
cada 3 mulheres NO PLANETA já foram espancadas, estupradas ou submetidas a
outro tipo de abuso. De cada cinco mulheres no mundo, uma será vítima ou
sofrerá uma tentativa de estupro até o fim da sua vida. O meu estupro é só mais
um em UM BILHÃO no planeta. Sim, esse número é real. Um bilhão. [...]".
Por fim, acho que esse texto serve para
democratizar um assunto que talvez muitas mulheres desconheçam ou fijam
desconhecer. É preciso falar. Calar não resolverá o problema. E você, homem,
que se vê diferente, não se identificou com o texto, meus parabéns. E se você
achou esse texto uma tremenda besteira, sendo homem ou mulher, reveja suas
atitudes e seus conceitos.
Textos que me inspiraram a escrever este
post:
Aline Valek: Quem me estuprou
Paula Abreu: Fui estuprada
Por Bruna Tamanini. Acessem: descendoacachoeira.tumblr.com


















