Levantou-se,
entrou no seu pequeno quarto de estudos e em seguida observou pasmo o ambiente
ao seu redor. De súbito, um estalo dolorido nas sinapses nervosas lhe trouxe de
volta todo o ocorrido da noite anterior. Uma ânsia descontrolada tomou conta de
seus pensamentos, sentiu-se enojado e ao mesmo tempo envergonhado; como aquilo
pudera acontecer? Nunca, jamais havia sofrido tamanho aviltamento. O que seria
agora de sua reputação? No entanto, com a intenção de acalmar o espírito pôs-se
a escrever.
Ah escrever,
sim, era um ótimo desvio para os tormentos convulsivos da realidade, se bem que
para Amador o que se convenciona chamar de realidade há muitas semanas
resumia-se em secar gradualmente garrafas de absinto e ser guiado pela fada
verde a um bacanal profano e afrodisíaco. Isso ocorria quando estava deitado na
cama do prostíbulo Noite Feliz. Num transe. Entre orgias de faz de conta e
explosões de êxtase com algumas de suas companheiras imaginárias.
O lugar de
devaneios libidinosos de Amador era dirigido por uma Cafetina muito famosa no
meio dos prostíbulos, seus clientes eram de um alto nível. Era comum ver o
motorista do recinto seu José Nicéforo, filho de um grego com uma brasileira,
levar clientes bêbados e felizes para suas respectivas casas. Amador era o mais
gozado deles, pois sempre acordava no táxi, questionava ao motorista se sabia
onde estava sua fadinha e voltava a dormir. Mas para seu Nicéforo a proximidade
ressaltou a curiosidade. Transmitiu à Cafetina a sua porção do que sabia sobre
o rapaz da fadinha e esta, por sua vez, passou a observá-lo com mais agudeza.
Os dois travaram por algum tempo uma conversa sobre as manias do referido
cliente. Um acaso acabou colocando Dr. H. Romeu na conversa, um delegado de policia
que por sorte do destino possuía um parco conhecimento da obra de Amador. O terceiro elemento resultou no inicio de um
triângulo de conversas, que tinha como tema central o estranho da garrafa verde
e da fadinha do Noite Feliz.
Na noite do
incidente que se deu com Amador o triângulo debatia o tema corriqueiro, porque
era dia, ou melhor, noite do garrafinha se trancar num dos quartos e sair de lá
carregado por seu Nicéforo. Amador entrou no recinto, andou até o caixa, disse
à Cafetina que queria o de sempre e como a ilustre mulher já estava acostumada
com o pedido pegou uma chave e lhe deu. Passado alguns minutos as três pessoas
iniciaram uma conversa.
A
Cafetina iniciou dizendo:
- Aqui aparece
de tudo, mas que nem ele é raro e impossível de não notar, traz com ele toda
noite uma garrafa cum troço verde, bebe uns dois copos, depois se tranca
sozinho num quarto e só sai de lá carregado. Só achei estranho hoje nem beber,
foi direto pro quarto. Bom, talvez tenha bebido antes.
O motorista
acrescentou:
- Além disso,
fica bebendo a noite inteira lá dentro o tal do absinto. Se é só pra encher a
cara porque não bebe em casa? Toda noite tenho que levar ele pra lá desmaiado.
Bom, ouvi dizer que ele é escritor, esse pessoal é louco mesmo.
O
motorista ia proferir mais algumas palavras quando o assíduo frequentador
daquela respeitável casa e terceiro membro da conversa o Dr. H. Romeu, um homem
de bigode e cabelos pretos interrompeu:
-
O rapaz é famoso, escreve contos e romances do gênero erótico, as mulheres
dizem que ele escreve sobre o ato com categoria, eu mesmo já li algumas coisas
dele e me parece que realmente sabe o que diz. A maneira que escreve é muito
distante da vulgaridade, faz daquilo um ótimo tema e, ainda, li algumas
entrevistas dele numa revista adulta, na qual ele afirma que todos os livros
que escreve se baseiam na sua experiência... na entrevista também lhe perguntaram qual o elemento mais
importante para escrever com aquela virilidade e ele respondeu “hay que endurecer pero sin perder la ternura(y
la dureza) jamás”. Agora a pergunta que faço é como? Ele fica a noite
inteira sozinho lá dentro... Eu nunca vi ninguém entrar lá com ele. Pensei que
tinha muitas experiências carnais.
A Cafetina
respondeu:
- Dr. Romeu, o
senhor tem toda razão ele se tranca lá dentro e nenhuma das minha minina entra, eu sei por que já
perguntei pra todas, depois de ficar trancado lá, vai embora sem ter feito
nada.
- Isso não é
nada. To cansado de ouvir, quando ele
tá voltando comigo no carro, ele fazer
a mesma pergunta sobre sua fada, seja lá o que isso for.
A Cafetina
interrompeu abruptamente o motorista:
- Que fada que
nada seu Nicéforo, aquilo é a pinga que ele toma falando por ele.
E continuaram
conversando sobre o rapaz até o assunto se encaminhar para outra direção.
Porém as
coisas dependem do referencial, para Amador não havia nada de estranho em seu
comportamento, aquilo era comum, quando acordava lembrava-se exatamente das
noites anteriores. Assiduamente tinha em seu leito musas belíssimas, uma atrás da
outra e, às vezes, todas ao mesmo tempo. Chegava em casa renovado e escrevia,
escrevia com paixão e ferocidade de sentimentos, transpunha todas suas relações
calorosamente. Só que naquela noite aconteceria algo doloroso para Amador.
Mal
adentrou no quarto de costume, uma mulher de cabelos dourados surgiu em sua
frente, tinha os olhos e as roupas verdes que se completavam numa mistura
sedutora, sentiu que iria provar da fruta mais cobiçada pelos seus delírios
eróticos. Iria possuir a fada verde, a mentora de suas fantasias, o pilar de
seu sucesso como escritor de gênero erótico - pilar porque aquele pedaço de
sonho lhe havia trazido, noite após noite, musas belíssimas para seu deleite.
Vendo a fadinha levantou-se, despiu-se indo em direção a ela e apaixonadamente
atracou-se naquele pedaço de sonho. Passado alguns minutos, de súbito tudo caiu
por terra: a “ternura” sobrepujou toda a “dureza”. Amador desfaleceu e foi
levado novamente para casa pelo taxista, só que daquela vez não perguntava
sobre sua fadinha.
E
lá estava ele em sua casa agonizando sobre a noite passada, tentou escrever
para acalmar os nervos, mas simplesmente não conseguia. Lembrava-se daquilo e
sentia vergonha, sua experiência tornou-se um pesadelo, foi desonrado, não
poderia mais escrever. Pensou em mil coisas, e dentre elas achou que a solução
seria matar aquele diabo vestido de verde. Iria voltar ao prostíbulo e iria
matá-la. E enquanto articulava suas ideias tilintou a campainha de seu
apartamento, caminhou vagarosamente até ela, abriu a porta e lá estava a fada
com as asinhas transparentes e o traje verdejante. Amador ficou perplexo
enquanto era absorto profundamente por aqueles olhos verdes. Nunca ela havia
lhe visitado em sua casa, algo deveria estar errado, o que seria que a fadinha
tinha a lhe dizer? Endireitou a postura da cabeça movendo as pálpebras de modo
delicado, encaminhou o olhar para Amador, arpejou a voz doce e disse:
-
Fui para ti a musa do teu coração, mas não soubeste me manejar. Perante sua
impotência para com minha nobre beleza lhe deixo a esmo, sem suas regalias e
frutíferas experiências. De ti me distancio para sempre e me aproximo dos
sonhos de outro que me seja digno e capaz.
A
doce voz com que a fada verde proferiu aquelas palavras petrificaram Amador,
que somente passados 10 minutos recobrou a consciência sobre o que acontecera.
Voltou a si com o estalo da vergonha e em seguida irrompeu em um acesso de
loucura e destruiu todo seu apartamento. Passou pelos quarto de dormir,
cozinha, banheiro e por último pela sua sala de estudos. Esmurrou tudo ao seu
redor, rasgou todas as suas folhas e livros. Olhou para um pequeno gabinete de
madeira onde guardava seus absintos importados de Portugal preparando uma
investida contra o mesmo. Agachou a cabeça endireitando os punhos na frente do
corpo e se chocou com o gabinete derrubando todas as garrafas sobre si, o
choque foi tão forte que desmaiou. Teve um delírio. Voltou ao quarto do
prostíbulo onde estava, na frente da fada verde. Ela se despia. Ele observava.
Ela se aproximava. Ele se afastava. Amador olhou para baixo e enxergou que o
pilar de suas fantasias não era metafórico e sim estava pendurado, como uma
pequena varinha de condão, que pendia do lugar errado, sob a saia da fadinha
verde.
Por Vitor Martinez de Mello.


















