Primeiro Amor.
“Lembra-te da minha
aflição e do meu pranto, do absinto e do fel. Minha alma, certamente, se lembra
e se abate dentro de mim.”
Lamentações de Jeremias
3:17
Já
estava há mais de dezoito horas trancado naquele quarto (contra minha vontade) refletindo
sobre a injustiça do mundo e me perguntando – de certa forma revoltado, – sobre
onde estaria o Capitão Planeta nos momentos em que a gente mais precisa. Foi
então que aquele gato apareceu na janela.
Sempre
odiei gatos. Não tanto por seus costumes e curiosidades – até simpatizo com a
boemia e preguiça com que vivem a vida –, mas pela presunção que levam no
semblante, como se fossem seres superiores. Mesmo assim, por não negar a aura
profética e mística que carregam em torno de si, costumo reservar certo
respeito a estes felinos. Não naquele dia.
“Puta-que-o-pariu”,
pensei, “só me faltava esse gato mijar na janela e eu levar a culpa de novo”.
Ok, tenho que confessar que das outras vezes eu era o culpado, e que
covardemente havia colocado a culpa em gatos que nem ao menos eu tinha; mas
dessa vez estava me referindo ao acontecimento de algumas horas atrás que
culminou no meu encarceramento domiciliar.
O
gato me olhava fixamente e alguma coisa nele me inspirou confiança. Achei que
aquele ser excomungado do convívio com o teflon, com a comidinha na tigela, com
o ar-condicionado poderia entender o que eu passava. Rolou cumplicidade sabe?
Então eu contei tudo. Contei como meu pai costuma chegar todo dia pra almoçar
atrasado, contei como minha mãe sempre deixa um prato preparado pra ele no
forno, contei a cara que o velho fez quando chegou e encontrou seu prato vazio
em cima da mesa e como ele me acusou
injustamente do furto alimentar.
“Eu
não podia acreditar que o meu genitor, motivo de tanta admiração pra mim,
estava gritando por causa de uma coxa de frango. Uma porcaria de uma coxa de
frango! Num primeiro momento pensei em dizer: “Mas se eu roubei foi pra comer,
tio!”. Só pra tirar uma com a cara do velho sabe? Mas achei melhor não abusar,
e me limitei a um “Não fui eu, PORRA!”. Antes não tivesse dito nada. Nunca me
esqueço, alguns anos atrás, do dia em que minha avó me chamou pra um canto da
sala, me fez sentar aos seus pés, olhou bem fundo nos meus olhos e como quem
revela o segredo do universo me disse: “Olhe Edgar, ouça bem o que lhe digo,
nunca diga a palavra com p” e começou
a roncar. Pois foi exatamente esse o erro em que incorri. Disse a porra da
palavra com p. Quando o velho ouviu,
parecia que ia entrar em erupção. Foi ficando vermelho, vermelho, e toda essa
vermelhidão se converteu em um cativeiro por tempo indeterminado sem comida
(“Pra aprender a não roubar comida dos outros!”).”
Nesse
ponto da narrativa, parei e me atentei ao bichano. Ele dedicava uma atenção
constrangedora à minha história. Seus olhos sorviam cada palavra com uma avidez
única, como se estivesse sendo-lhe revelado um mundo novo em que não era apenas
ele o injustiçado. Pasmado, cria eu, com essa descoberta, o gato não conseguiu
dizer outra coisa senão “miau”.
Aquela
resposta falou muito ao meu coração. Não pela inteligência da resposta – miau é miau e ponto final –; mas porque só aí lembrei que mamãe faria filet mignon[1] aquela noite, o que
permitiu que a fome resultante de 19 horas de cárcere me deixasse um tanto sentimental. Percebendo minha fraqueza, o gatinho pulou
para o meu colo, pedindo carinho. Aquilo me desabou. Aquela carinha ronronante
no meu colo, pedindo carinho, aqueles olhos brilhantes, a minha fome... “Só
você me entende... Só você...”, eu dizia em meio às lágrimas.
Quando
já me recuperava daquele surto e começava até achar ridículo aquele acesso
repentino de sentimentalismo inexplicável, o meu amigo estremeceu. Seu corpo
enrijeceu-se, achei estranho. Por um momento parou de respirar, me preocupei.
Caiu no chão a estrebuchar, gritei pela minha mãe. O pobre coitado cravava as
unhas no carpete, se esticava todo, seu dorso fazia movimentos anatomicamente
(cria eu) impossíveis, e da sua boca de felino escancarada saía um grito de
socorro estrangulado. Meu amigo estava ali no chão se contorcendo – fiz o sinal
da cruz – e ninguém aparecia para
ajudar. Fiquei desesperado! Ele olhava para mim pedindo ajuda e tudo o que eu
podia fazer era chorar. Num ato desesperado me ajoelhei e, com as mãos juntas,
disse: “Papai do céu, se meu amigo sobreviver eu assumo a culpa do sumiço da
maldita – ops, desculpa –, da bendita coxa de frango só pra meu pai não ficar
mais bravo. Amém.”
Deus
foi rápido dessa vez. Digo dessa vez porque já estou há 2 anos esperando o
Camilo cair da escada (pra ver se ele aprende a não colocar taxinha na cadeira
dos outros) e nada. Mas como eu dizia, assim que eu disse “amém” o gato cuspiu
uma coisa nojenta no chão. Eu gritava “MILAGRE! MILAGRE!”, abraçava o meu amigo
(o primeiro animal ressurreto da história) e fazia-o prometer que nunca mais ia
me dar um susto desses.
Refeito
do susto, coloquei o bichano com cuidado no parapeito da janela e me dediquei a
analisar a “coisa nojenta”. Logo descobri que era uma simples bola de pelo, mas
algo destoava naquilo tudo. Já havia visto muitas vezes um gato expelindo uma
bola de pelo, mas nada tão grotesco como daquela vez. Olhando mais atentamente
para aquele emaranhado, encontrei pêlo, pêlo, um botão, um zíper, mais pêlo e
finalmente constatei o causador do sofrimento do meu amigo. Era algo
atravessado na bola de pelo. O que seria aquilo? Peguei um lápis e comecei a
revolver a gosma. Seria um palito de sorvete? Não, estava mais para uma...
De
um lance peguei o taco de bétia e avancei para a janela.
O felino já se encontrava
no telhado da vizinha.
“Gato filho-da-...”
[1]- Mais tarde, pensando sobre como
eu havia feito essa relação “miau/mignon”, lembrei-me de um conto que li na
escola. Algo sobre um corvo que dava conselhos amorosos a um rapaz. O nome do
autor me foge à memória, nenhuma perda considerável. Ao que me lembro, história
de fantasma, mesquinharia.
Por Vitor Martinez de Mello.


















