SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 19 de set. de 2012

Primeiro Amor.

“Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do fel. Minha alma, certamente, se lembra e se abate dentro de mim.”
Lamentações de Jeremias 3:17

            Já estava há mais de dezoito horas trancado naquele quarto (contra minha vontade) refletindo sobre a injustiça do mundo e me perguntando – de certa forma revoltado, – sobre onde estaria o Capitão Planeta nos momentos em que a gente mais precisa. Foi então que aquele gato apareceu na janela.
            Sempre odiei gatos. Não tanto por seus costumes e curiosidades – até simpatizo com a boemia e preguiça com que vivem a vida –, mas pela presunção que levam no semblante, como se fossem seres superiores. Mesmo assim, por não negar a aura profética e mística que carregam em torno de si, costumo reservar certo respeito a estes felinos. Não naquele dia.
            “Puta-que-o-pariu”, pensei, “só me faltava esse gato mijar na janela e eu levar a culpa de novo”. Ok, tenho que confessar que das outras vezes eu era o culpado, e que covardemente havia colocado a culpa em gatos que nem ao menos eu tinha; mas dessa vez estava me referindo ao acontecimento de algumas horas atrás que culminou no meu encarceramento domiciliar.
            O gato me olhava fixamente e alguma coisa nele me inspirou confiança. Achei que aquele ser excomungado do convívio com o teflon, com a comidinha na tigela, com o ar-condicionado poderia entender o que eu passava. Rolou cumplicidade sabe? Então eu contei tudo. Contei como meu pai costuma chegar todo dia pra almoçar atrasado, contei como minha mãe sempre deixa um prato preparado pra ele no forno, contei a cara que o velho fez quando chegou e encontrou seu prato vazio em cima da mesa  e como ele me acusou injustamente do furto alimentar.
            “Eu não podia acreditar que o meu genitor, motivo de tanta admiração pra mim, estava gritando por causa de uma coxa de frango. Uma porcaria de uma coxa de frango! Num primeiro momento pensei em dizer: “Mas se eu roubei foi pra comer, tio!”. Só pra tirar uma com a cara do velho sabe? Mas achei melhor não abusar, e me limitei a um “Não fui eu, PORRA!”. Antes não tivesse dito nada. Nunca me esqueço, alguns anos atrás, do dia em que minha avó me chamou pra um canto da sala, me fez sentar aos seus pés, olhou bem fundo nos meus olhos e como quem revela o segredo do universo me disse: “Olhe Edgar, ouça bem o que lhe digo, nunca diga a palavra com p” e começou a roncar. Pois foi exatamente esse o erro em que incorri. Disse a porra da palavra com p. Quando o velho ouviu, parecia que ia entrar em erupção. Foi ficando vermelho, vermelho, e toda essa vermelhidão se converteu em um cativeiro por tempo indeterminado sem comida (“Pra aprender a não roubar comida dos outros!”).”
            Nesse ponto da narrativa, parei e me atentei ao bichano. Ele dedicava uma atenção constrangedora à minha história. Seus olhos sorviam cada palavra com uma avidez única, como se estivesse sendo-lhe revelado um mundo novo em que não era apenas ele o injustiçado. Pasmado, cria eu, com essa descoberta, o gato não conseguiu dizer outra coisa senão “miau”.
            Aquela resposta falou muito ao meu coração. Não pela inteligência da resposta – miau é miau e ponto final –; mas porque só aí lembrei que mamãe faria filet mignon[1] aquela noite, o que permitiu que a fome resultante de 19 horas de cárcere  me deixasse um tanto sentimental.  Percebendo minha fraqueza, o gatinho pulou para o meu colo, pedindo carinho. Aquilo me desabou. Aquela carinha ronronante no meu colo, pedindo carinho, aqueles olhos brilhantes, a minha fome... “Só você me entende... Só você...”, eu dizia em meio às lágrimas.
            Quando já me recuperava daquele surto e começava até achar ridículo aquele acesso repentino de sentimentalismo inexplicável, o meu amigo estremeceu. Seu corpo enrijeceu-se, achei estranho. Por um momento parou de respirar, me preocupei. Caiu no chão a estrebuchar, gritei pela minha mãe. O pobre coitado cravava as unhas no carpete, se esticava todo, seu dorso fazia movimentos anatomicamente (cria eu) impossíveis, e da sua boca de felino escancarada saía um grito de socorro estrangulado. Meu amigo estava ali no chão se contorcendo – fiz o sinal da cruz –  e ninguém aparecia para ajudar. Fiquei desesperado! Ele olhava para mim pedindo ajuda e tudo o que eu podia fazer era chorar. Num ato desesperado me ajoelhei e, com as mãos juntas, disse: “Papai do céu, se meu amigo sobreviver eu assumo a culpa do sumiço da maldita – ops, desculpa –, da bendita coxa de frango só pra meu pai não ficar mais bravo. Amém.”
            Deus foi rápido dessa vez. Digo dessa vez porque já estou há 2 anos esperando o Camilo cair da escada (pra ver se ele aprende a não colocar taxinha na cadeira dos outros) e nada. Mas como eu dizia, assim que eu disse “amém” o gato cuspiu uma coisa nojenta no chão. Eu gritava “MILAGRE! MILAGRE!”, abraçava o meu amigo (o primeiro animal ressurreto da história) e fazia-o prometer que nunca mais ia me dar um susto desses.
            Refeito do susto, coloquei o bichano com cuidado no parapeito da janela e me dediquei a analisar a “coisa nojenta”. Logo descobri que era uma simples bola de pelo, mas algo destoava naquilo tudo. Já havia visto muitas vezes um gato expelindo uma bola de pelo, mas nada tão grotesco como daquela vez. Olhando mais atentamente para aquele emaranhado, encontrei pêlo, pêlo, um botão, um zíper, mais pêlo e finalmente constatei o causador do sofrimento do meu amigo. Era algo atravessado na bola de pelo. O que seria aquilo? Peguei um lápis e comecei a revolver a gosma. Seria um palito de sorvete? Não, estava mais para uma...
            De um lance peguei o taco de bétia e avancei para a janela.
O felino já se encontrava no telhado da vizinha.
“Gato filho-da-...”






[1]- Mais tarde, pensando sobre como eu havia feito essa relação “miau/mignon”, lembrei-me de um conto que li na escola. Algo sobre um corvo que dava conselhos amorosos a um rapaz. O nome do autor me foge à memória, nenhuma perda considerável. Ao que me lembro, história de fantasma, mesquinharia.

Por Vitor Martinez de Mello.