Quinta-feira, 7h da manhã. Meia hora, a partir de agora, para chegar ao trabalho. Meu espelho encara meu cansaço. Rosto: base, pó, rímel, um blush de leve e nada de batom; a maquiagem do trabalho não pode ser forte. Eu sou uma psicóloga, tenho que impressionar meus pacientes.
Sexta.
Começo do meu final de semana. 22h. Meu espelho encara meu cansaço. Rosto: base,
pó, rímel. Blush forte. A maquiagem
dos olhos não pode ser leve no dia de sair com as amigas. No dia em que se está
disposta a uma aventura amorosa que dure algumas horas. Eu tenho que
impressionar algum cara hoje. Impressionar as amigas. Um cara e as amigas.
Sábado.
10h da manhã. Meu espelho encara meu cansaço. Almoço com os pais. Rosto: base,
rímel, pó. Blush de leve, mas o batom
pode ser forte. Meus pais me julgam uma pessoa “extremamente cansada”. Eu não
estou cansada. Tenho que impressionar meus pais. Eu não estou cansada.
Sábado,
21h. As amigas da sexta (que não trabalham, não estudam e, portanto, nunca
estão cansadas) querem um restaurante de comida japonesa. Detesto comida
japonesa. Meu cansaço é gritante. Meu espelho o encara. Rosto: base, pó, rímel,
lápis nos olhos. Batom? Como as pessoas que frequentam esses restaurantes se
vestem?
Encarei
o espelho. Ele tem razão e meus pais também. Encarei meu cansaço. Rosto: água.
Só água.
Ignorei
os telefonemas e a possibilidade de me “esbaldar” no peixe cru. Abracei meu
travesseiro, meu pijama, minha televisão. Meu descanso. Meu sono. Encaro meu
espelho antes de dormir. Ele encara só a mim. Sem o cansaço. Sem a maquiagem.
Sem ninguém pra impressionar. No rosto, água. Só água.
Por Jessica Roberti.
Por Jessica Roberti.


















