SESSÃO: Papo de Mulherzinha - Por Jessica Roberti.

» Postado por: - Categorias: | 30 de ago. de 2012
Não dá para viver harmoniosamente sem as leis, que são, por sua vez, consequência de um Estado governante e uma política de governo direcionados a organizar as relações da sociedade: nós. Mas toda a lei expressa é necessária? Por exemplo, é importante uma lei que determine a relação entre patrão-empregado dentro de uma empresa. Isso impede que haja abusos de alguma das partes (principalmente da mais forte), que a relação seja proveitosa para ambos e que a repercussão desta relação afete a coletividade de forma positiva (a tão falada função social de todas as coisas). Mas uma lei que determine uma punição a uma pessoa que atire lixo, ou qualquer outro objeto na rua pela janela do carro, faz sentido? Ou uma lei que deixe claro que há certos bancos nos ônibus ou metrôs que são assentos preferenciais para idosos, gestantes, pessoas com deficiência, com crianças de colo e obesos? Vamos pegar então uma realidade mais cotidiana: filas preferenciais. É preciso uma fila, indicada por uma placa que expõe a lei que determina a preferência para pessoas naquelas mesmas situações dos assentos preferenciais?
“Certo. Completamente certo. Todo mundo sai ganhando nessa história. Os que precisam da preferência têm a preferência. E a gente respeita.”
Que Brasil lindo esse, não? Gente que respeita as diferenças, que se preocupa com a progressão não só econômica do país, mas também na cultura, saúde, educação e cidadania. Cidadania. Palavrinha irritante. Respeito o caramba.
A verdade é que a cara de pau é tamanha, o sorriso amarelo é tão largo que ninguém enxerga nada por detrás disso. Volte nos exemplos do começo desse texto: são LEIS que OBRIGAM o indivíduo a fazer algo para o BEM do OUTRO. E se não faz, tem multa. Faz sentido? Não deveria ser exatamente o contrário? A intenção de fazer o bem teria que partir do indivíduo de forma espontânea, sem querer receber algo em troca, simplesmente pelo prazer de poder ajudar àquele que é mais carente de ajuda. O fato de o garoto dirigindo aos 17 anos não atirar a latinha de cerveja - que ele traçou enquanto dirigia - pela janela de sua B.M.W. - presentinho do papai - na rua deveria ser por pura “consciência social” (nome que se dá às atitudes que se espera de “cidadãos”), e não pela preocupação com mais uma multa (além do que ele vai tirar do bolso por dirigir embriagado e sem habilitação. Ou melhor, o papai vai tirar do bolso. Ou, dependendo de quem seja ninguém tira nada do bolso; ou tira, mas pra ir para o bolso do policial, do delegado...).
Isso não é respeito ao próximo. É obrigação, respeito à lei, medo de pagar multa, tanto faz. Respeito é aquela frase que a professora da 4ª série usava em sala: “faça para os outros o que você gostaria que fizessem pra você” (grande tia Roseli!). É fazer o bem, porque você gosta que façam o bem pra você. Não é fazer o bem para mostrar aos outros o quão solidário você é, mas por saber o que o outro sente com a sua atitude. É recíproco. Você faz o bem porque gosta de receber o bem; e o faz para que o próximo sinta-se tão bem quanto você se sente ao receber o bem. Aí sim, todos saem ganhando nessa história.
Utopia? É provável. Talvez a gente continue em passos lentos, andando em círculos, acreditando na “cidadania – a gente vê por aqui” e fazendo leis que nos induzam a um comportamento mais humano, já que até o fato de ser humano tem que ser legalizado no meio de uma cambada de seres humanos de seres deturpados.