Não
dá para viver harmoniosamente sem as leis, que são, por sua vez, consequência
de um Estado governante e uma política de governo direcionados a organizar as
relações da sociedade: nós. Mas toda a lei expressa é necessária? Por exemplo,
é importante uma lei que determine a relação entre patrão-empregado dentro de
uma empresa. Isso impede que haja abusos de alguma das partes (principalmente
da mais forte), que a relação seja proveitosa para ambos e que a repercussão
desta relação afete a coletividade de forma positiva (a tão falada função
social de todas as coisas). Mas uma lei que determine uma punição a uma pessoa
que atire lixo, ou qualquer outro objeto na rua pela janela do carro, faz
sentido? Ou uma lei que deixe claro que há certos bancos nos ônibus ou metrôs
que são assentos preferenciais para idosos, gestantes, pessoas com deficiência,
com crianças de colo e obesos? Vamos pegar então uma realidade mais cotidiana:
filas preferenciais. É preciso uma fila, indicada por uma placa que expõe a lei
que determina a preferência para pessoas naquelas mesmas situações dos assentos
preferenciais?
“Certo.
Completamente certo. Todo mundo sai ganhando nessa história. Os que precisam da
preferência têm a preferência. E a gente respeita.”
Que
Brasil lindo esse, não? Gente que respeita as diferenças, que se preocupa com a
progressão não só econômica do país, mas também na cultura, saúde, educação e
cidadania. Cidadania. Palavrinha irritante. Respeito o caramba.
A
verdade é que a cara de pau é tamanha, o sorriso amarelo é tão largo que
ninguém enxerga nada por detrás disso. Volte nos exemplos do começo desse
texto: são LEIS que OBRIGAM o indivíduo a fazer algo para o BEM do OUTRO. E se
não faz, tem multa. Faz sentido? Não deveria ser exatamente o contrário? A
intenção de fazer o bem teria que partir do indivíduo de forma espontânea, sem querer
receber algo em troca, simplesmente pelo prazer de poder ajudar àquele que é
mais carente de ajuda. O fato de o garoto dirigindo aos 17 anos não atirar a
latinha de cerveja - que ele traçou enquanto dirigia - pela janela de sua B.M.W.
- presentinho do papai - na rua deveria ser por pura “consciência social” (nome
que se dá às atitudes que se espera de “cidadãos”), e não pela preocupação com
mais uma multa (além do que ele vai tirar do bolso por dirigir embriagado e sem
habilitação. Ou melhor, o papai vai tirar do bolso. Ou, dependendo de quem seja
ninguém tira nada do bolso; ou tira, mas pra ir para o bolso do policial, do
delegado...).
Isso
não é respeito ao próximo. É obrigação, respeito à lei, medo de pagar multa,
tanto faz. Respeito é aquela frase que a professora da 4ª série usava em sala:
“faça para os outros o que você gostaria que fizessem pra você” (grande tia
Roseli!). É fazer o bem, porque você gosta que façam o bem pra você. Não é
fazer o bem para mostrar aos outros o quão solidário você é, mas por saber o
que o outro sente com a sua atitude. É recíproco. Você faz o bem porque gosta
de receber o bem; e o faz para que o próximo sinta-se tão bem quanto você se
sente ao receber o bem. Aí sim, todos saem ganhando nessa história.
Utopia?
É provável. Talvez a gente continue em passos lentos, andando em círculos,
acreditando na “cidadania – a gente vê
por aqui” e fazendo leis que nos induzam a um comportamento mais humano, já
que até o fato de ser humano tem que
ser legalizado no meio de uma cambada de seres humanos de seres deturpados.


















