Volta.
Há quem diga que os empurrõezinhos são dotados de grande potencial para criar, converter, modificar uma situação. Eu concordo. Empurrõezinhos têm uma capacidade e tanto.
Eu gosto dos carrinhos de supermercados. Nada específico, além do fato de eu poder sentar na borda do carrinho, pedir para o meu irmão me empurrar por alguns corredores e passear pelo mercado (detalhe: eu tenho 21 anos). o passeio dura enquanto a paciência dele durar- ou seja, pouco - e é, pra mim, a diversão do mercado. (Devo abrir estes parênteses para expor minha aversão a mercados. Não há uma explicação fundamentada, eu só não gosto deles). A verdade é que, no momento em que eu estou sentada em cima do carrinho (empurrado pelo irmão com cara de impaciência), transitando pelos corredores do mercado e atrapalhando, algumas vezes, os clientes acessarem produtos desejados, há quem me olhe. Há quem pense "que ridícula"; quem ria; quem não pense nada - a indiferença é a marca da sociedade de hoje (ou de sempre). Enfim, a escolha é minha: eu quero subir no carrinho, eu quero ser empurrada e quero passear pelo mercado, mas a ação em si só ocorre com o empurrãozinho do irmão. Percebe como o empurrãozinho é fundamental?
Agora uma situação diferente, mas semelhante: minha terça-feira. Acordei cedo, peguei o ônibus e parti rumo à faculdade. Eu estava exausta às 7h da manhã. (Permita-me abrir outros parênteses para enfatizar a minha dificuldade em acordar cedo. E, ainda que o faça, eu levo umas 2h para me tornar capaz de assimilar as informações que eu preciso, ou seja, a matéria da aula). Na minha cabeça era só o efeito do sono, como de costume. Mas não. Eu realmente estava exausta. Minha cabeça doía e meus olhos ficaram abertos durante a viagem; o que me fez dormir boa parte dela. Na outra parte fiquei cogitando a possibilidade de não descer do ônibus, faltar à aula e voltar pra casa. Cinco minutos à frente isso já era quase um veredicto. Volte para a história dos carrinhos de supermercados: eu já estava em cima do carrinho, esperando alguém para me empurrar. E houve alguém. Eu mandei um sms no celular do meu namorado e falei da ideia (até então, sem sentido): "To pensando seriamento em não descer do ônibus e voltar pra casa.". Nessas horas a opinião do outro é crucial: "Volta", foi a resposta dele. O suficiente para eu chegar à porta da faculdade, olhar para o cobrador e dizer: "to sem saco pra aula hoje. Vou voltar pra casa.".
Aquele "volta" foi meu empurrãozinho em cima do carrinho do mercado. Mudou a rotina do meu dia. Mudou meu dia. Eu entendi que as coisas que fazem parte da nossa vida são importantes e devem ser tratadas, portanto, com o devido cuidado e empenho. Mas nada é mais importante que você. Não você aluno, professor, pai, mãe, empresário, ou qualquer qualificação que seja a sua. Você. O seu eu. Você estar bem consigo mesmo, com o seu caráter, com a sua essência. Você investir tempo em um eu melhorado, transformado, mais humano. Naquele dia, ao chegar em casa, eu dormi. Eu esqueci da Jessica-aluna e só pensei na Jessica. A Jessica (só Jessica) precisava descansar. Não só fisicamente, mas descansar a mente. Aquele "volta" mudou um dia todo, meu humor, minha sintonia com a família dentro de casa.
Hoje eu só quero convidar você (você; seu eu) a permitir que alguém te empurre. Sem medo. A mudar a rotina, a cabeça, o modo de vida. Deixe que um empurrãozinho mostre a você o potencial que ele tem de transformar as coisas. "Volta".
*Dedico esse texto ao Vitor Martinez de Mello, o namorado que provocou o empurrãozinho. Embora ele diga que aquilo foi preguiça, o "volta" dele foi, de fato, um empurrãozinho transformador; e ao Neto Roberti, pelos empurrõezinhos no carrinho de supermercado.


















