O que te faz homem (ou mulher)
Era uma vez uma ex-namorada. A gente não deu certo. Eu não era um namorado ruim, apenas um ser humano deplorável e sem escrúpulos. Alguns anos depois do nosso namoro, me peguei lembrando da forma como tudo terminou e me arrependi. Não de ter terminado, mas de ter feito as coisas da maneira que fiz. Eu estava num período de reavaliação pessoal, de mudanças de rumos, e resolvi pedir perdão pra ela. Foi uma conversa bem interessante... Conversamos por algumas horas e, suprindo aqui alguns palavrões e impropérios, ela disse mais ou menos o seguinte:
"Você não é homem".
Os anos passaram, ouvir dizer que ela casou, e eu me peguei pensando sobre aquelas palavras. "Você não é homem." Caraca, o que isso quer dizer? Da última vez que eu fui no banheiro estava tudo em cima. Ok, a gente sabe que não é pelo no peito que faz de alguém homem, certo? Até porque hoje em dia isso não quer dizer muita coisa.
Quando eu penso na expressão "ser homem", não tem nada a ver com o sexo masculino ou com o sexo feminino; penso na ideia de ser humano, ser completo. Sendo assim, o primeiro passa na direção de "ser homem" ou "ser mulher" (cada um escolha o que lhe agrada mais) é se aceitar como você é. Se eu não me aceito como eu sou - e não penso em estética, mas em caráter, personalidade, emoções... -, eu finjo. Finjo ser alguém mais politizado, alguém mais ecologicamente consciente, alguém menos canalha, alguém menos pornô. Assim eu tenho a falsa percepção de ser quem eu quiser, apesar de lá no fundo eu saber que tudo não passa de um fake de mim mesmo.
E sabe de uma coisa? Fakes não duram para sempre. Mais hora, menos hora, vai aparecer alguém pra te dizer que você não é homem.
Quando você é honesto consigo mesmo, você saca que é complexo, dúbio e bipolar. Como Brennan Manning, um pensador da atualidade, disse uma vez, "Aristóteles diz que eu sou um animal racional, eu digo que sou um anjo com um incrível potencial para cerveja." Hoje a gente já pode encontrar várias correntes do pensamento pós-moderno que entendem a necessidade de se aceitar e se reconhecer. O grande problema é que essa aceitação pode descambar em covardia. Ok, é necessário que eu reconheça quem eu sou, mas quem disse que o que eu sou é sempre bom?
Somos viciados inveterados: uma geração viciada em televisão, viciada em trabalho, viciada em pornografia, viciada em prazer, e só não somos mais viciados em cigarro porque somos viciados em dentes brancos. Vícios atrás de vícios. E se tem uma coisa que os vícios fazem (além de viciar, lógico) é deturpar os instintos. Um alcoólatra não percebe que já não pode controlar os goles; um workaholic acha uma eternidade passar meia hora com a família, mas não vê passar as dez horas de trabalho... É por isso que se aceitar não basta, é preciso lutar contra.
Imagine se nos entregássemos a todos nosso instintos? Não seríamos em nada diferentes de animais. E, se formos pensar com cuidado, não é isso que a sociedade do "o importante é você se sentir-se bem" prega? Assim, ninguém vai precisar dizer nada; você mesmo, ao mirar o espelho da honestidade, não vai poder afirmar outra coisa a não ser que você não é homem (ou mulher).
No meio de uma geração de fakes e animais, é preciso ter coragem para ser você mesmo. Termino dizendo que, com aquele pedido de desculpas, talvez minha ex-namorada tenha presenciado, em primeira mão, o nascimento de um homem.
Por Vitor Martinez de Mello.


















