O Viajante.

Não se sabia quando havia sido a primeira vez que ele tinha aparecido. Certamente foi muito antes que alguém se desse conta do inusitado, afinal, quem repara em um homem com uma mala, em uma estação de trem? Sobretudo em uma estação de trem como aquela, das antigas, barulhenta e suja. Suficientemente grande para presenciar, diariamente, passos apressados misturados a lentos abraços alegres ou triste, daqueles que tornam uma estação esse lugar ambíguo de passagem, entre dor, alegria e indiferença. Sobretudo indiferença. Tanto que só depois de vários meses, ou anos, sabe-se lá, é que ele finalmente se transformou no personagem: "o viajante". O autor da alcunha permanece desconhecido, mas a ironia rasteira, ideal para apelidos, foi extremamente eficaz como meio de divulgação.
A chegada do viajante sempre provoca as mesmas reações. O barbeiro apontava com o queixo e o cliente da vez olhava pelo reflexo do espelho. O guarda balançava a cabeça e dizia alguma coisa ao taxista ou motorista de ônibus com quem conversasse no momento. O faxineiro se encostava na vassoura e aproveitava o descanso (justificado) de alguns segundos. Gestos mecânicos mas que, inconscientemente, eram acompanhados de um agradecimento silencioso. Obrigado pelo meu bom juízo, eu que não saio de casa cada dia, carregando uma mala, para me sentar numa estação de trem por uns minutos e depois voltar pela mesma entrada, sem ter ido a lugar algum.
Ninguém nunca conversou com o viajante. Um ou outro pedinte recém chegado na praça lhe havia pedido dinheiro. Um ou outro perdido lhe havia pedido informações, mas isso era raro: algo na postura do viajante minimizava essas ocorrências. Quem sabe fosse seu modo de ficar ali parado, grave, como que ansioso por uma viagem importante. Seu modo de abrir a mala, olhar seu conteúdo por alguns minutos e, de repente, como se houvesse esquecido algo, levantar-se e partir.
Obviamente, havia todo um folclore em torno do viajante. Pouco a pouco, a custa de olhares, às vezes discretos, às vezes não, fez-se o inventário do conteúdo da mala: um álbum de fotos, uma meia dúzia de LPs, um relógio de bolso, um carrinho de brinquedo, três ou quatro cadernos, uma agenda e um crucifixo de madeira. Outros objetos entravam ou saiam da lista segundo a época do ano: uma faca, um revólver, um vestido de mulher... mas a maioria desses itens flutuantes parecia ser mesmo invenção de um ou outro entediado desejoso de um pouco mais de ação. Essas adições e subtrações inventadas fizeram com que poucos notassem quando, lentamente, a mala foi ficando mais vazia. E menos ainda relacionaram o fato ao tempo cada vez maior que o viajante passava sentado, diante do entra e sai ininterrupto de trens. Com ou sem testemunhas, os itens foram sim sumindo, sem um ritmo definido. Algumas vezes a mala permanecia sem baixas por meses e, de repente, em pouco mais que dois ou três dias, desapareciam dois discos e uma meia-dúzia de fotos. Outras vezes, semanas eram necessárias para que um único caderno deixasse a mala. Lentamente, ou não, incoerentemente, ou não, a mala ia ficando mais leve.
Cada vez mais leve. E quando, muito longe das grandes manchetes da primeira página, os jornais noticiaram o estranho caso do homem que se havia jogado nos trilhos do hangar principal da estação central, ninguém se deu conta do que a mala vazia deixada para trás testemunhava: o viajante finalmente havia trazido tudo que precisava.
*Esse texto faz parte da coletânea produzida como proposta para uma disciplina "Entre Teorias e Ficções" que eu assisti em 2008 quando cursei Letras na UFSCar. Todos os textos da coletânea eram de autoria anônima.

















