SESSÃO: Chamando Jesus de Genésio - Por Vitor M. Mello

» Postado por: - Categorias: | 1 de ago. de 2012
São seus olhos...
Eu adoro rotina. A dos outros, é lógico. Toda rotina que não for a minha é maravilhosamente melhor. Há dois dias atrás, resolvi colocar em prática uma agenda diferente. Acordei 7h da manhã, tomei um banho e fui para a represa da minha cidade, onde costumo correr um pouco. Dessa vez, antes de correr, me sentei debaixo de uma árvore e fiquei a observar o "movimento". Que experiência!
Depois de um tempo de meditação silenciosa, pude observar as diferentes folhagens das árvores, que nenhum Monet expressaria de forma tão impressionante... Pude refletir sobre as patos que nadavam e voavam em bandos por toda a represa. Já ouvi muita gente usar o pato como exemplo de mediocridade, dizendo que ele nem nada direito, nem voa direito; mas, caraca, eles NADAM E VOAM! Eu, por exemplo, só sei nadar. Além disso, pelo menos nas horas que passei ali, não vi o casal de garças comer um peixe sequer, enquanto os patos enchiam o bucho... Também tive o prazer de presenciar, durante mais ou menos uma hora, a "paquera" de duas rolinhas. Nunca me senti tão honrado em estar ali. Que classe, que pureza! Eu quase podia ouvir a música a embalar aquela dança tão singela, que um idiota qualquer descreveria como um empurra-empurra sem sentido (fiquei pensando que talvez só os apaixonados entendam as rolinhas)... Fiquei nesse meu êxtase contemplativo até ser expulso "da minha árvore" por um grupo de seis ou sete delinquentes que já rondavam por ali há algum tempo. Segue a foto abaixo. Se alguém se deparar com algum deles, cuidada, são hostis e perigosos..


O mais impressionante é que eu sempre fui nessas represas e eu nunca tinha reparado nisso! Eu só tinha reparado nas capivaras, e isso porque às vezes elas interrompem o trânsito. Como eu nunca tinha visto aquilo tudo? Uma semana antes dessa minha experiência, minha namorada (a moça bonita que escreve na coluna - "Papo de Mulherzinha", eu recomendo) fez eu parar o carro ali perto e quis sentar na grama. Ficamos 10 minutos e eu percebi que aquele lugar tinha potencial. Foi isso que me levou àquele lugar dias depois e proporcionou essa incrível experiência. Foi preciso que alguém de fora me presenteasse com uma nova perspectiva. Hoje aquele lugar tem um novo significado pra mim.
Essa situação me fez, inclusive, lembrar de um professor que tive na faculdade. Eu sempre me sentava perto da porta, no lado direito da sala, pois isso evitava que meus atrasos e minhas saídas prematuras atrapalhassem o andamento da aula. Aquele professor me dava ódio. Seu olhar sempre reto, altivo e sua fala rebuscada e excessivamente pomposa, conferiam a ele uma arrogância quase insuportável. Foram longos seis meses, até que um dia, entro na sala e meu lugar está ocupado. Tive que me sentar no lado exatamente oposto, no lado esquerdo da sala. Tive uma grande surpresa: no lado direito do seu rosto, ele tinha uma mancha de nascença. Não era nada escandaloso, era inclusive bem discreta, mas fez toda diferença. A mancha meio que revestiu aquele professor de uma humildade e modéstia que fizeram eu até gostar da disciplina que ele ministrava, Morfossintaxe. Não sei se essa "humildade" e "modéstia" eram reais, ou uma simples reação psicológica do meu cérebro; o que eu sei é que perspectiva é perspectiva, e isso é quase tudo.
O problema é que nós estamos tão impregnados de nossos pré-conceitos, julgamentos e experiências não revisitadas, que não conseguimos ver nada além daquilo que queremos ver ou que é mais cômodo ver. Não descarto a importância das nossas experiência passadas e das conclusões que chegamos outrora, mas a vida é aprendizado, é mudança, é evolução. Gosto da ideia do jaleco que, com o tempo, fica encardido, não importa o quanto se lave. Por exemplo: alguém uma vez disse que "na perspectiva do medo, nada é suficientemente seguro; e na perspectiva do amor, nada é necessário"; eu concluo, então, que a visão unilateral é manca.
Não basta "dar um tapa", às vezes é preciso tirar o jaleco, colocá-lo no cabide e olhá-lo bem de frente antes de dizer inflexivelmente que ele é branco.

Por Vitor Martinez de Mello.